Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

ENVELHECER É SINÔNIMO DE MORRER?

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Há uns dias atrás, um cemitério de Teresina resolveu bombar sua fanpage do facebook fazendo postagens engraçadas sobre a morte, como a imagem acima. Foi um sucesso, pois entre compartilhamentos e críticas o nome do estabelecimento não saiu das rodas de conversa. Alguns amigos meus até programaram um picnic no local e me convidaram, garantindo que a lanchonete de lá é ótima.

Piadas aparte, todo esse burburinho sobre o cemitério na verdade me fez pensar em outra coisa: para muita gente, envelhecer assusta porque significa morte e a ideia da proximidade da morte é algo que faz estremecer até gente corajosa.

Pensando sobre o assunto – partindo da premissa de que “ao envelhecer a certeza da morte é mais iminente” – logo eu esbarro em uma contradição. Na verdade, se você está envelhecendo isso quer dizer que você está driblando a morte a cada momento. Você só envelhece porque não morreu.

Neste carnaval, em algum lugar das ladeiras de Olinda, uma amiga encontrou um conhecido que estava lá pela primeira vez. Muito empolgada, perguntou:

– O que você está achando do carnaval daqui?

– É legal, mas eu prefiro o carnaval de Salvador. O daqui é muito cheio respondeu ele como se dissesse algo óbvio. Ela então indagou:

– Mas o carnaval de Salvador não é cheio?

– É, mas o povo é mais bonito.

Ela, com seu sempre presente humor mordaz, num tom professoral, explicou:

– O contrário de cheio é vazio. Não é bonito.

Aplicando a lógica da muitas-vezes-sábia amiga, concluímos que para morrer basta estar vivo e não velho.

Uma estrela de Hollywood certa vez disse: Eu acho envelhecer um saco, mas quando penso que a outra opção é a morte, prefiro continuar assim.

Porém é inevitável pensar a cada aniversário que o tempo está se esgotando. Você começa a contar, ao invés de mais 1, menos 1. E isso gera uma certa melancolia, não posso negar.

Você pode até dizer que eu estou exagerando, afinal acabo de completar apenas 30. Mas o fato de estar completando 30 quer dizer que eu estou chegando na fase em que tenho que pensar no colesterol, na próstata, na ressaca do dia seguinte no trabalho após uma noite de balada ou simplesmente de uma noite mal dormida, sendo que até ano passado eu não me preocupava com nada disso.

Claro que daqui pra frente, o que vai fazer diferença é a forma que eu vou encarar as coisas. Decidir se é “mais 1” ou “menos 1”. E como eu gosto muito de ouvir os mais velhos, fico com a filosofia da minha querida tia avó de 101 anos – não vou revelar o nome porque ela odeia que saibam sua idade – que ao ser perguntada qual o segredo da longevidade responde sem pestanejar: É a número 1!

Então fica assim:

– Mais 1 ou  menos 1?

– A número 1.

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16 comentários em “ENVELHECER É SINÔNIMO DE MORRER?

  1. alejandrina
    31 de março de 2014

    Entao, a vida é moribunda, estamos morrendo enquanto vivemos. A morte SEMPRE vem de surpressa e náo temos como prevé-la. O chato de envelhecer (para mi) não é que vou ficando mais perto da morte mas que ja não tenho 30. Nao sou tao linda como eu era aos 30 (porque eu ja me sinto de 40…)nao tenho tantas opões viatis a serem tomadas, gosto das minhas muscias e perdi de algum jeito a capacidade de ouvir novas musicas…(me ajudem ai) ..Acho que no meu caso a morte nao da medo mas o fato de ser velho sim, Medo das dores, das rugas, de que a ropa fica feia, de que a mente fique lenta, de ficar repetitiva nao hora de contar histórias.

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  2. Rafael Nova
    31 de março de 2014

    Em uma das últimas aulas na minha especialização em Arteterapia tivemos um módulo todo sobre família. Foi meio angustiante porque estudamos todas as etapas de desenvolvimento de uma família: do jovem casal à velhice onde você se prepara para morrer e tem de lidar com a perda de familiares, amigos, cônjuge. Pra mim essa é uma das aflições ao pensar em morte – a perda daqueles que são caros (também porque já passei por várias até agora, então tive um “gosto” de toda a coisa). De qualquer modo falávamos também sobre a nossa cultura onde o idoso (chamado “velho”) não tem o respeito que possui em culturas tribais ou orientais, onde é visto como fonte de sabedoria. A professora, por outro lado, frisou como muitos dos nossos idosos atuais não sabem envelhecer, acumulando amarguras e problemas mal-resolvidos, e com isso se tornam um tanto “chatos” porque não compartilham, ou mesmo não desenvolveram uma sabedoria para repartir. Pode ser que nossa geração envelheça de um outro modo, talvez mais conectada ou participativa, ou resolutiva – eu não sei. Acho que o importante é manter a vitalidade e a paixão pela vida, para não ficar só acumulando anos (sobrevivendo) ao invés de realmente participar do mundo. E estar perto dos 30 me faz também sentir que as escolhas se tornam cada vez mais importantes, e que a “espera” me incomoda.

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    • Ítalo Damasceno
      31 de março de 2014

      Pegando o que tu disse e o comentário abaixo do teu, eu faço a pergunta que me fizeram hoje sobre o meu post: E qual é a parte boa de envelhecer? Só sabedoria e experiência?

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      • luana
        31 de março de 2014

        mais dinheiro do que quando eramos universitários lascados? (we hope! :D)

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  3. Notempo
    31 de março de 2014

    Concordo com o comentário do Rafael e digo mais. Alguns idosos tratam a velhice como um estágio para a morte. Se enclausuram na tristeza e param de viver fora de casa como se não valesse mais a pena viver porque teoricamente a morte está mais próxima.

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  4. Jorge R.
    31 de março de 2014

    Envelhecer te aproxima da morte, fato inegável. Um dia vi na tv um cara que falou que cada dia vivido o corpo vai se apodrecendo. É verdade. Mas e daí? Envelhecer te dá a chance de acertar os erros, de errar mais ainda e aprender com isso. Envelhecer tem seus pontos negativos, mas tudo tem que ônus e bônus.

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    • Ítalo Damasceno
      31 de março de 2014

      Então envelhecer te dá tempo? Te dá outra chance?
      Gostei dessa ideia, Jorge

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      • Jorge R.
        31 de março de 2014

        É, fez merda hoje, sofra por um tempo e conserte quando estiver bem. Se não tiver conserto, sofra mais um pouco, um dia passa.

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  5. gon
    1 de abril de 2014

    Então, eu já fiz quarenta anos e agora penso menos na velhice e a morte. Na verdade, ninguém está morrendo, exceto quem tá muito muito doente ou em outro processo de agonia. Todos estamos vivendo, evitando a morte a cada passo, até que um dia ela pega a gente. Ninguém morre por ser velho, morre porque um carro bate em você, ou de câncer (também pode viver de câncer), ou porque deram um tiro em você, e assim. Isso pode acontecer qualquer dia, qualquer hora. Achar que envelhecer nos aproxima da morte é absurdo. Tal vez acrescenta um pouco as possibilidades de morrer (algumas delas, outras diminuem, por exemplo morrer assassinado por um amante ocasional que pegou numa boate vagabunda -os velhos não fazem isso tanto), mas não nos aproxima da morte.
    Assim, estava sofrendo muito o tédio do trabalho e decidi fugir pra tomar um café e algum destilado (coisa nem tão frequente em Buenos Aires): ai achei que na loja vendiam garrafas pra levar (não doses nem garrafas pra beber na loja), entre elas, magicamente, umas três variedades de Ypioca. Comprei a crystal e pedi um café. Logicamente abri a garrafa e bebi uma dose: que boa, que rejuvenescedora!

    ¡Vivir, sólo cuesta vida!

    Recomendo muito esta música de Los Redonditos de Ricota:

    ¿Dónde usás los dientes mi amor?
    clavados en el cuello, por hoy…
    (mientras bailamos tangos fatales)

    El tango que ocultamos mejor
    (del que preferimos no hablar)
    es el que nos tiene narcotizados

    Vivir, solo cuesta vida
    Ahora! Ya mismo! Puedo ajustar un guión de ropa sucia
    Ropa sucia – ¡Fuera! ¡Ahora mismo!

    Andás dando guerra y temblás
    gastándote en relámpagos
    (tu estómago gruñe como enjaulado)

    Tu gracia mete miedo mi amor
    dejo de beber tu licor
    que huele a tormenta de viejo estilo

    Vivir, sólo cuesta vida
    Ahora! Ya mismo! Puedo ajustar un guión de ropa sucia
    Ropa sucia – fuera! Ahora mismo!

    Beijos mortais,

    G

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  6. gon
    1 de abril de 2014

    ah, en realidad dice: es el que nos tiene anarcotizados (no narcotizados como dice la letra que les pasé).

    Agora, quase como primeira ação séria de trabalho, acabo de defender um colega que a embaixadora estava criticando.

    O bom de ser velho é… ser velho!

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    • Ítalo Damasceno
      1 de abril de 2014

      Hahahahah
      Eu ainda vou fazer um post sobre o bom de ser velho é ser velho.
      Depois que eu fiz trinta alguém me perguntou o que havia mudado em mim e minha irmã respondeu antes de mim: O ÍTALO FICOU CARETA!!!
      Só me restou dizer: Agora eu tenho 30 anos!!! Tenho direito a ser careta hahahha
      São as vantagens de ir ficando velho
      Beijos Gon

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  7. Rafael Nova
    2 de abril de 2014

    Boa pergunta Italo: além da sabedoria e experiência, o que há? É instigante. Nossa sociedade está muito carente de “sentido”. Qual é o sentido do envelhecimento? E de morrer? Quanto menos dispostos de encontrar uma resposta, mais ansiedade. Mas eu penso que se você envelhecer bem, é bem provável que a capacidade afetiva seja refinada. Se você para pra pensar no corpo, ele “envelhece”, os sentidos eles gradualmente (pelo menos em grande parte, embora alguns os mantenham muito bem obrigado) perdem sua total capacidade… No entanto, por que a capacidade de se emocionar não “envelhece”? As emoções – componentes bioquímicos num nível físico, ligados a regiões específicas do cérebro, elas se mantém, e ouso dizer que parecem ampliadas até. A minha opinião muito, mas muito pessoal, é que a sociedade em todos os níveis, do científico ao pessoal, precisa dar um próximo passo para evoluir, e esse passo só será dado num mergulho dentro do espiritual. Nesse ponto ser “idoso” é estar mais próximo de lá, e poder manifestar mais isso, compartilhar… Haha, eu não tenho respostas, apenas muitas perguntas, cada vez mais. Obrigado por esse texto maravilhoso.

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  8. Wilton Lopes
    3 de abril de 2014

    Li em uma matéria essa semana os casos de suicídios entre idosos, e na sua maioria mulheres. Na pesquisa realizada, tendo como base a sociedade patriarcal que temos, quando a mulher chega na velhice, pra ela, ela já fez tudo que havia de fazer então a última coisas que falta é a morte. Em um dos casos citados uma das últimas coisas que uma senhora falou semana antes de cometer suicídio foi “Meu filho caçula casou então já terminei minha missão”. Acredito que a ideia de velhice deve ter um novo significado. Acredito que a velhice da nossa geração pode mudar essa atual concepção, do que muitos já falam, melhor idade.

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    • Ítalo Damasceno
      3 de abril de 2014

      É Wilton, se envelhecer já é considerado difícil, para as mulheres é pior. Este é um tópico que eu vou abordar em algum post. Não dá pra fugir.
      Mas essa concepção tem que mudar, afinal estamos caminhando para uma maioria de idosos o que eu acho que vai provocar toda uma quebra de ideias do “acabou minha missão”. Eu penso que, se fosse eu, eu ia dizer: Acabou minha missão. #partiupraiaforever hahaha
      Será que meu blog está preconizando uma mudança???
      ^^

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  9. Daniel
    4 de abril de 2014

    Li uma colunista da Época que também fez uma reflexão interessante sobre o envelhecimento. Em um ponto, ela descontrói essa dicotomia vida-morte, dizendo que o contrário de morte é nascimento, e não vida. A morte, para ela, é somente a última etapa da vida. Dois antônimos devidamente aprendidos com essas leituras: o de cheio é vazio e o morte é nascimento.

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Publicado às 31 de março de 2014 por em História, Humor, Memórias e marcado , , , , .
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