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PULP FICTION OU TEMPOS DE VIOLÊNCIA?

picasso

Estamos vivendo um período muito estranho. Ninguém sabe o que é que está deixando ele estranho, mas todos admitem que está estranho. Vamos tratar de uma das estranhezas desse tempo: a violência.

A violência está deixando as pessoas estranhas. Na verdade elas estão quase histéricas. Pode reparar que todo mundo está meio apavorado, achando que há motivo para estar assim e isso tem feito que elas ajam de volta com violência pois estariam no seu direito de revidar.

Revidar o que?

Tratando da grande violência – essa veiculada pelos jornais, em especial pelos programas que vão ao ar no horário do almoço -, o que se percebe é que está impossível de colocar o pé fora de casa sem levar um tiro. Eu quase nem acredito que consegui chegar em casa sem ter sido sequestrado, morto e esquartejado quando vejo algum desses apresentadores clamando por mais polícia nas ruas como solução para a violência das cidades.

Mas depois que passa o alívio, eu sempre me pergunto: está assim mesmo? Era preciso passar por este terror ao andar numa rua?

Eu estava desconfiado se essa sensação era apenas minha e das pessoas próximas a mim, mas comecei a perguntar à minha volta e todos me responderam que nas suas casas também está instalado uma sensação de medo. E pior, que ao ser questionado sobre isso, todo mundo fala como se fosse ÓBVIO que você deveria ter medo.

De novo eu pergunto, medo de que?

Um exemplo prático da sensação de medo que estamos vivendo é que Teresina, minha cidade, semana passada foi tomada por uma enxurrada de mensagens no Whats app dizendo que “tal lugar estaria sendo assaltado, houve tiroteio e que X pessoas haviam morrido”, ou que “uma mulher vestida de enfermeira estaria fingindo estar fazendo teste de glicose nas pessoas, mas furava seus dedos com uma agulha infectada pelo vírus HIV”. Logo depois que me contaram isso, eu recebi uma mensagem, por Whats app contado a mesma história, só que agora o lugar assaltado era em Brasília. E as pessoas saem repassando isso, acreditando em tudo, e se instala o medo.

Isso me lembra da história de Orson Welles que, na década de 1920, leu um trecho de A guerra dos mundos no rádio e as pessoas acharam que era um noticiário que descrevia a invasão da Terra por alienígenas de verdade, o que causou um pandemônio nos EUA. Quando meu professor de história contou este fato ele disse que o pânico havia se instalado porque as pessoas ainda não eram conscientes do poder da mídia e acreditavam em tudo o que era dito no rádio. E no Whats App?

Já a pequena violência é aquela que praticamos e sofremos todos os dias, às vezes sem nem sair de casa. São aquelas que fazemos quando somos grossos com alguém ou mal educados.

Sim, isso também é uma violência e não é menos importante do que a primeira.

Essa é a violência feita pelo “garanhão” que dá em cima de todas as mulheres de maneira grosseira; pelo morador de uma casa que trata mal a diarista/empregada apenas porque entende que ela está abaixo dele; ou por você que dá uma resposta atravessada a alguém só porque está de ovo virado. Todas essas são formas de violência que cultivamos e tratamos como normal ao longo do nosso dia.

A coisa está de tal forma – me repito como disse no início – estranha que eu já fui indagado duas vezes nos últimos dias por que eu estava sendo educado.

“Por que você agradeceu ao frentista?” – me perguntou um carona que estava no carro. Eu nem sabia o que responder, pois não podia acreditar que ele estava falando sério.

A segunda vez foi ainda pior, porque a pessoa estava me perguntando porque eu estaria agradecendo a ela própria. Eu disse que ela havia feito algo que eu tinha pedido, por isso eu tinha agradecido. E em retorno o que eu ganhei? A pessoa me pede algo e nem fala “por favor”. Quando eu questionei, ele disse apenas que isso era bobagem.

A pequena violência não parece estar mais relacionada a uma má educação ou uma prepotência. Ela agora se justifica para não dar lugar a uma pessoa que depois possa me ferir. Antes que ela aja com violência comigo, eu agirei dessa forma com ela e ninguém pode dizer que eu estou errado em me proteger.

Será que a violência maior está deixando as pessoas despreparadas para serem tratadas com gentileza? Ou a violência menor é que nos dá a sensação de pavor geral? Afinal, se uma pessoa não é capaz de dar “bom dia” a quem lhe abre a porta da loja, do que mais ela não deve ser capaz?

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3 comentários em “PULP FICTION OU TEMPOS DE VIOLÊNCIA?

  1. Jorge R.
    7 de abril de 2014

    É horrível a sensação de não poder sair de casa porque temos um grande risco de morrer, ser ferido, abusado. E sempre tenho pensamentos inflamados sobre o assunto e, no final, me vejo liderando uma revolução social que vai dar merda. O mundo é nosso, não podemos viver atrás das grades das nossas casas.
    E o curioso é que nunca fui assaltado e nunca passei por uma experiência violenta, a maior parte das minhas andanças por Teresina são bem legais, seguras, mas não deixo de sentir o peso do medo, do meu medo, do temor dos meus pais toda que saio de casa, da minha irmã ser atacada, de um familiar e/ou amigo sofrer algo. Resumindo: a vida é legal, mas tá foda.
    Mad Men, na quarta temporada, mostra numa cena bem isso. A Peggy diz que ajudava Don no trabalho, mas nunca recebeu um obrigado. Então ele, grosseiramente, diz: “É para isso que existe salário”. Daí percebi que as pessoas preferem que as outras façam seus serviços e o pagamento ou a não reclamação é a forma prática de agradecer, isso com pessoas ditas inferiores, até porque não lembro de um paciente que agradeceu alguma técnica em enfermagem pelos cuidados, e lambeu o chão do médico que leu seu prontuário.

    P.S: Quando somos educados com alguém, geralmente estas pessoas são duas vezes mais educadas conosco. Pensem nisso. Ser educado é legal.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Rafael Nova
    7 de abril de 2014

    Eu estou em vias de escrever pro site sobre um anime/mangá/série de livros chamado Nº 6. O enredo gira em torno dessa cidade-estado (uma das únicas seis, por isso o título) que se institui num dos poucos lugares habitáveis após guerras que devastaram o mundo. Era para ser uma cidade perfeita, e aparentemente o é. Porém o protagonista acaba descobrindo que por debaixo da aparência tranquila existe terror, tortura, degradação do meio ambiente, e informações totalmente distorcidas… Falo sobre isso porque ao final da história uma facção libertária luta para tomar o poder. A mãe do personagem principal enxerga isso com maus olhos, pois ela vê que as pessoas que querem ‘subir’ praticam os mesmos tipos de violência e atos que as autoridades vigentes.

    Outra coisa que me lembrei foi uma resposta de Madre Teresa de Calcutá quando inquirida sobre o motivo que ela não participava de manifestações contra a guerra e a violência, ao que ela respondeu que participaria quando houvessem eventos e manifestações em pró da paz.

    Chegando enfim ao motivo dessas considerações, é que tudo o que acreditamos e somos cria a realidade. A violência existe através das pessoas que creem e são violentas. Infelizmente como você bem salientou estamos desapegados da boa educação, da paz, da gentileza… Que são pequenas coisas que poderiam “reformar” o nosso mundo. No entanto, se faz crer que cada uma delas sejam hoje em dia fraquezas.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 7 de abril de 2014 por em Filmes, História e marcado , , , .
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