Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

AMIZADE E SOLIDÃO

beleza

Conversando com uns amigos sobre viver muito e viver pouco, chegamos a um ponto muito sensível da questão: a desvantagem de você viver muito e ver todas as pessoas que ama indo embora, morrendo.

Um grande amigo me disse: “Eu não quero ser o primeiro a morrer, quero ir a alguns velórios, mas eu não quero ser o último. Quem vai me enterrar se eu for o último”? É verdade. Essa sensação de solidão que dá ao ver todos os seus contemporâneos sumirem é inegável.

Quando eu era adolescente eu pensei numa coisa. “Você não fica gagá, apenas as pessoas que entenderiam suas piadas internas que sumiram”. Cada época forma um tipo de pessoa, com valores e referências comuns. À medida que essas pessoas vão sumindo, você vai parecendo perdido no tempo, pois quem te entendia não está mais por aqui. E com a velocidade das mudanças, cada vez mais rápido você parece antigo – no mal sentido da palavra – e é preciso correr cada vez mais para acompanhar as mudanças (tecnológicas, de gírias, de referências).

Há uma cena no filme italiano A grande beleza, premiado pelo Oscar este ano, que traduz muito bem a solitude gerada por essa ausência de contemporâneos. Uma personagem explica para o protagonista: Um amigo tem o dever de fazer o outro se sentir como uma criança. E tem mesmo.

Meu avô, recentemente, perdeu o último amigo da sua época e isso o deixou bem abatido. Tão abatido que pensaram que ele estava doente. Não era. Era só melancolia de se ver, de certa forma, sozinho. É pensar que, talvez, se todos já foram não me resta mais muito tempo. “Sou o próximo”! Assim mesmo, não com uma interrogação, mas com uma exclamação. A certeza de um dado inquestionável, como se nós tivéssemos alguma certeza na vida.

Naquela conversa do começo do texto, revelei uma coisa meio estranha. Eu sempre tive a sensação de que seria o último a morrer. Acho que isso se deu porque eu tinha as orelhas muito grandes e ouvi por toda a minha infância que “orelha grande é sinal de vida longa, você vai viver muito”. Bom, eu odiava ter orelha grande e eu trocaria essa vida longa por uma orelha de proporções normais.

O tempo passou, eu cresci e as orelhas ficaram normais em relação ao tamanho da cabeça, mas a confiança de que terei uma vida longa se manteve em mim e por isso eu me preparei para perder as pessoas que amo. Se minha sina seria viver muito, eu teria que lidar muitas vezes com a perda. Portanto, o melhor era preparar a cabeça e o coração para elas.

Irônico seria se eu acabasse sendo o primeiro do grupo a partir… poderia ser triste, mas admito que eu daria muitas risadas no outro mundo se isso acontecesse.

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2 comentários em “AMIZADE E SOLIDÃO

  1. buruno
    5 de junho de 2014

    Nao pretendo morrer

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 9 de abril de 2014 por em Filmes, História, Memórias e marcado .
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