Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

PRESENÇA DE MANECO

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Os maiores esportes nacionais de 2014 têm sido se preparar para a copa, organizar uma manifestação e falar mal da novela das 9. Neste último, o nome do seu principal escritor Manoel Carlos, vulgo Maneco, tem sido muito citado como o culpado do tão celebrado fracasso de audiência. Fracasso esse que, no peito de muitos, tem dado uma alegria velada ou estridente por ter motivo de falar mal do principal produto da filial do capeta Rede Globo e dizer que, junto com o formato de novela, seu poderio está por um fio pois o “gigante acordou” (essa expressão foi moda em 2013, ainda pode ser usada em 2014?).

Ok, a novela é ruim mesmo, mas eu tenho minha própria teoria de que a culpa não é essencialmente do Maneco e sua “eterna repetição” (expressão que eu não gosto porque existe “repetição” e “estilo”, apesar de que Hitchcock definia estilo como auto-plágio). Maneco tem seu estilo de conflitos e personagens e eu, que sem falsa modéstia tenho mais horas de TV do que urubu de voo, vejo que o real problema é o tipo de direção contemplativo de Jayme Monjardim, diretor de Pantanal, O Clone e A vida da gente. Para que não digam que eu estou de birra com o homem citei duas novelas dele que eu gosto de verdade e uma que eu não gosto, mas é um sucesso inegável no mundo inteiro.

No entanto, já que é tendência falar mal da novela das 9, eu estou a fim de pegar um outro caminho, porque descobri que tem gente que segue as tendências e outras que as cria. Eu quero trazer à memória uma obra prima do Maneco, Presença de Anita.

Poucos não vão lembrar da história, mas não custa nada fazer um mini flashback. A minissérie de 2001, inspirada no livro de Mário Donato, é sobre uma família que vai passar o natal na cidade onde nasceu a mãe, Lúcia Helena, que é casada com Fernando Reis, o Nando, e com ele tem um filho e uma enteada. Durante essa estada, Nando conhece Anita, uma moça de 18 anos, e vive uma paixão avassaladora. Todas as cenas em que Anita aparece cheiram a tragédia e morte. Essa garota infernal acaba envolvendo toda a família, incluindo aí as irmãs e o pai bem velho de Lúcia, e o vizinho da frente da ninfeta, o doce e virgem Zezinho, que acaba por virar uma marionete nas mãos dela.

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Quando a minissérie foi ao ar pela primeira vez eu tinha 17 anos e, claro, era encantado pela Anita. Ela era o máximo. Eu queria ser igual a ela e falar igual a ela, cheguei até a decorar muitas falas as quais eu repito ainda hoje quando percebo que estou conversando com alguém que não vai saber de onde tirei aquilo. Ela era polêmica, pois dos 12 aos 16 viveu um caso com o famoso Armando, um pintor de 60 anos que a pintava nua e que a existência não tem como comprovar se era real. Para terminar de me matar, ela fumava e falava francês.

Eu adorei tanto a série que comprei tudo o que podia dela, no caso os DVDs e o livro com o roteiro completo. O DVD eu já devo ter visto mais de 10 vezes tranquilamente.

Acontece que até a quinta vez que eu vi, meus olhos eram totalmente voltados para a Anita, eu nem fazia questão de ver as cenas da Lúcia Helena, a mulher frágil e chata do Nando. No entanto, da sexta em diante, eu comecei a prestar atenção às falas dela, à sua vida e à evolução da personagem lindamente interpretada por Helena Ranaldi. Pude ver o que é você ser uma dona de casa totalmente devotada ao seu marido e à família, o sexo de uma bela mulher de 40 anos, como se sente alguém que descobre a traição da pessoa que ela ama e quão difícil, mas não impossível, você refazer sua vida nem que seja se apegando à previsão de uma cigana de praça.

Quando eu comecei a ter empatia com Lúcia meu primeiro choque foi perceber que eu já estava além dos 18 anos de Anita e minha idade se aproximava cada vez mais à da primeira. Em um determinado ponto da história é revelado que ela foi um projeto de Anita, mas não que deu errado, e sim que deu certo, pois o final das Lolitas das histórias é quase sempre triste.

Do ponto de vista de um escritor e telespectador, hoje eu percebo a total evolução da personagem Lúcia Helena e quão empacada numa ideia idiota de morrer por amor Anita era. É tão revelador esse entendimento que uma pergunta que eu me fiz por tanto tempo, “Por que essa é a única novela do Maneco, dessa fase das Helenas, que a protagonista não se chama Helena?, foi finalmente respondia. Porque a verdadeira protagonista da novela é Lúcia. Ela que sofre, ela que chora, ela que batalha, ela que luta e ela que vence no final, como toda boa protagonista de novela queira o espectador ou não. Anita é a eterna não-vilã do Maneco, pois suas novelas não tem vilões, porém tem personagens que por suas razões fazem coisas ruins com um ou outro personagem que a gente entende ser o certo, mas que jamais é pelo simples prazer da maldade.

Lúcia nunca é citada como uma das “Helenas do Maneco”, apesar de ser taxada com todos os defeitos de qualquer uma das outras: é boba, chorona, foi impetuosa na juventude, faz tudo em nome do amor pela família e sem grande carisma com o público. Este é um erro que um dia pode ser corrigido facilmente.

Eu não tenho coragem de falar mal da atual novela do Maneco. O que este homem me deu de material de conhecimento da vida, de frases de efeito para usar na hora certa, de verdadeiros tapas na minha cara pelos meus preconceitos e incompreensões e da novela Por amor inteira – incluindo aí Branca Letícia de Barros Mota –, eu estaria sendo mal-agradecido com ele, coisa que eu não sou.

Em família pode não ser uma boa novela, mas eu a acompanho pelo menos por meio dos comerciais, porque Maneco é capaz de me dizer algo naquele um minuto de duração e eu vou guardar para a vida inteira.

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Publicado às 9 de junho de 2014 por em Família, Memórias, Novela, TV e marcado , , , , .
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