Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

ODE AO CHIQUIN

eles

Meu pai tem um amigo que me marcou profundamente. Ele é o Chiquin, pai de dois grandes amigos da minha infância, Renata e Waltin.

O Chiquin era aquele cara boa praça, arquiteto com ar de intelectual. Na sala da casa dele havia uma mesa de projeção com aquelas folhas especiais mais finas e ele desenhava casas de verdade. Ele também tinha uma coleção imensa de revistas em quadrinhos de bang-bang e de super-heróis no fundo da cozinha. Eu não entendia nada daquilo, mas ele comprava e guardava e isso eu respeitava. Ele deixava a gente ler, mas eu pouco mexi naquelas revistas.

Na época que surgiu o CD, ele levava caixas e caixas de discos para ouvir no Bar do Reginaldo, onde meu pai ia beber todas as quartas, sextas e sábados. Quer dizer, era uma rotina intensa.

A gente era criança e ficava só na coca-cola mesmo, mas eles bebiam e ouviam música até tarde. Eu nunca tinha visto meu pai ouvir ou cantar uma música até aparecer o Chiquin e seus CDs. A trilha sonora desses momentos era basicamente grandes cantores da MPB com forte presença da galera do nordeste: Gil, Caetano, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba, Raul Seixas, Chico, Toquinho, Vinícius, Gal. O cd do Raul, eu lembro até hoje, era o momento da noite que eu brincava que tinha poderes mágicos, completamente alheio da atenção dos adultos, ao som de Gita ou de Eu nasci há dez mil anos atrás. (Eu ainda faço isso, só que na minha mente, externamente eu não mexo nenhum músculo para ninguém notar o que se passa na minha cabeça naquele momento).

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O Chiquin foi uma porta de entrada para o mundo do meu pai. Pelas conversas deles eu descobri coisas que meu pai não me contava em casa. Eles falavam de um filme que tinham visto na adolescência – caraca, meu pai assiste filme! -, momentos históricos – poxa vida, meu pai viu passeatas acontecendo! – e momentos da vida dele – meu pai passou por isso com os pais dele? Não acredito.

Mas o Chiquin virou meu ídolo de verdade em 1993. Ele gostava tanto de filmes que, eu me lembro, ele investiu uma boa grana numa TV bem grande e um videocassete de última geração. E não só isso, todo final de semana ele alugava uma porrada de filmes, pegando aquelas promoções que tinham. Na minha memória de criança, eu acho que ele alugava uns 15 filmes por final de semana, mas pode ser exagero meu. Eu achava o máximo.

Dentro desse pacotão, sempre vinham umas 3 fitas para a molecada poder assistir junto com o Waltin. Muito filme de luta, desenho, aventura, comédia e terror. Era o que a gente gostava. Era só tiro, porrada e bomba.

Mas aí chegou esse dia em 1993 em que o Chiquin fez o que eu considerei por muito tempo a coisa mais sensacional do mundo. Ele alugou O parque dos dinossauros.

Vocês não tem noção do que foi isso. Ele não só alugou este filme, como foi o primeiro a alugar, pagando a taxa de primeira locação. Além disso, eu pensei “ele deve ser um cara muito importante, porque ele conseguiu com o dono da locadora que o cara guardasse o filme para ele poder assistir”. Agora imaginem numa Teresina que não tinha cinema, o poder que tinha um dono de locadora de fitas VHS.

Se ele não quisesse, você jamais veria o filme que estava a cidade inteira comentando. Daí o jeito era esperar passar na TV dali a uns dois anos, quando já era assunto superado.

Voltando à noite do Parque dos dinossauros, o Chiquin fez um mega evento. Chamou todo mundo do condomínio e fez muita pipoca. As crianças sentaram todas em frente à TV, no chão, e os pais nos sofás e cadeiras. A hierarquia era muito bem estabelecida.

Vimos o filme e no final todos foram para casa, felizes. E eu achei que o Chiquin tinha feito o maior evento ever. Acho que até hoje, quando eu vejo algum filme, procuro sentir aquela mesma sensação de cinema que eu tive naquela sala na noite da seção. Tento me conectar com as outras pessoas na sala de projeção da mesma forma que me conectei com aqueles vizinhos, íntimos ou não, porque é também para isso que o cinema existe.

Hoje o Chiquin virou referência. Quando eu ouço uma música que tocava naquele tempo, debaixo do pé de seriguela do bar do Reginaldo, eu lembro dele. Descobri depois que a minha irmã também. Se estivermos juntos, olhamos um para o outro e dizemos:

– Essa música é a cara do Chiquin.

– É mesmo – alguém confirma com toda a certeza do mundo, porque sabemos exatamente do que estamos falando.

Em seguida começamos a listar nomes de todas aquelas pessoas que frequentaram a nossa infância, até um dos dois admitir que o outro foi o mais longe possível.

Acho que hoje procuro meus amigos inconscientemente lembrando do Chiquin. Só me dou conta disso quando eles fazem alguma coisa e eu reconheço aquele amigo do meu pai. E se esse amigo toca uma música que o Chiquin tocava no seu set list, aí a amizade se firma como certeira.

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4 comentários em “ODE AO CHIQUIN

  1. Angel Andrina
    11 de junho de 2014

    e eles continuam amigos? (seu post me fez pensar muito nos meus pais e nas festas de aniversario de crianñca, nelas eu assistia super8…SIM…fita, fita mesmo)

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      11 de junho de 2014

      Eles continuam amigos, mas não se encontram com tanta frequência. Agora quando acontece é um acaso. Eu era que tinha vontade de encontrar de novo com meu pai e o Chiquin. =D

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  2. ROLAND
    20 de setembro de 2014

    Me parece que nada vai ser tão legal quanto foi no IAPEP, todas as brincadeiras e besteiras, os filmes e as músicas, quem viveu essa época, naquele lugar, sabe o quanto foi especial aquilo tudo. Eu acho que, não sei se porque eu era criança nessa época, mas qualquer coisa que o stephen king inventasse para nos separar do resto do mundo não daria um bom livro de terror ou suspense.

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      22 de setembro de 2014

      Só uma pergunta: tu é o Rolanzinho, irmão da Geórgia?

      Se for, nem o Stephen King seria bom o suficiente para imaginar um reeencontro desses. rsrs

      Cara, que massa ter contato contigo de novo, ainda mais por aqui, ainda mais com você dizendo que as minhas lembranças são as mesmas que as tuas e que elas também te fazem lembrar com saudades.

      E essa vivência no IAPEP foi mesmo especial.

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Publicado às 11 de junho de 2014 por em Família, Memórias e marcado , , , , .
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