Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

QUANDO DESCOBRI QUE EU HAVIA ESCRITO UM LIVRO

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Muita coisa tem acontecido desde que eu comecei este blog e uma das mais importantes foi que, por ele, entrei em contato com uma revista de cultura daqui de Brasília, a Di Rolê. Estamos conversando e vendo um meio de trabalharmos juntos. O primeiro teste foi cobrir o lançamento do livro do deputado Jean Wyllys (link aqui), Tempo bom, Tempo ruim.

Desde determinada a primeira missão meu coração está disparado. Fazer um trabalho jornalístico sem ser um jornalista formado, me garantindo só no talento de que eu sei escrever e no olhar observador de quem sempre viveu em condomínios e por isso sabe para onde olhar para saber de onde a notícia vem, não é fácil.

Meu primeiro pensamento foi “eu preciso ler esse livro para saber sobre o que é e o que perguntar”. Só que estou numa fase economicamente complicada. É mais ou menos como se eu tivesse pago pelo atraso das obras da copa. Está tudo ok, mas não sobrou nada e a Fifa não tem facilitado a minha vida para um ganho extra. Então o que fazer? Tive que recorrer a essa cara de pau que o sagrado solo do Piauí me deu.

Comecei a me chegar no gabinete do Jean e logo encontrei outro piauiense ali. Pronto, a porta estava aberta. Assim, com a voz doce e meu jeito meigo, expliquei que iria cobrir o lançamento e gostaria de saber se eles não tinham um exemplar para me emprestar para eu ver, ou, se não fosse pedir muito, me emprestar para lê-lo só até o dia do lançamento. Não havia nenhum exemplar sobrando no gabinete, mas meu amigo piauiense tinha um e autografado. Ele me emprestaria com prazer. De brinde, ainda ganhei um copo chocolate quente. Piauiense é um povo f***.

A primeira coisa que eu fiz -claro – foi convidar um amigo meu, também fã do Jean, para almoçar só para esfregar na cara dele que eu tinha em minhas mãos um exemplar autografado pelo próprio autor. A segunda coisa foi começar a ler.

Naquele almoço, talvez por inveja da preciosidade que eu tinha nas mãos, meu amigo fez algumas críticas ao meu blog. Disse que eu deveria escrever textos maiores porque ele, apesar de sempre gostar dos posts, ficava esperando por mais e logo o texto acabava. Também me cobrou mais de mim mesmo nos textos. Eu fiquei pensando sobre aquilo, matutando. Busquei ver o que havia de verdade em sua crítica.

Já na parada, esperando o ônibus para ir para casa, não aguentei e comecei a ler o livro. Que choque eu tomei ao perceber o quanto a escrita do Jean parece com a minha. Os primeiros capítulos do livro são falando de onde ele nasceu, sua família e sua educação de forte base religiosa. “O jeito dele contar a sua vida parece muito com o meu”. Seus capítulos poderiam ser tranquilamente um post do meu blog e poderia ter sido escrito por mim. Não é falsa modéstia, mas você encontrar alguém em que você vê a sua forma de expressar é muito louco. E mais louco ainda foi perceber os mesmos defeitos apontados nos meus textos nos dele. Com o diferencial que a matéria principal da primeira parte do livro é o próprio autor – pegando aí a crítica do meu amigo sobre a falta de mim nos posts.

Crédito:   ASCOM/Jean Wyllys

Crédito: ASCOM/Jean Wyllys

Não à toa, Jean fala do início do seu engajamento político junto aos movimentos eclesiásticos e da sua primeira ida a um local gay. Há no livro um capítulo só sobre Jorge Amado e sobre a dualidade Santa Bárbara/Iansã – esta presente desde o título do livro que é um verso da música de Iansã. Jean faz referência inclusive ao artigo da Constituição de 1946, apresentado por Amado, que garantiu a liberdade religiosa no Brasil e que era exatamente o tema do mestrado que eu tentei fazer na UNB.

Há, inclusive, um capítulo inteiramente voltado para as mídias de massa e novelas. Ele analisa a presença de personagens gays e portadores do HIV na teledramaturgia brasileira e defende a importância de não renegar esse campo a mero meio de alienação popular. O que serve para humilhar e matar, também pode ser usado para educar e salvar, defende ele.

Na segunda parte, nós nos separamos, mas não completamente. Jean dá um show nos capítulos referentes às questões LGBT, sexualidade e gênero. O livro se mostra uma cartilha direta e esclarecedora sobre seus pensamentos, ideias e opiniões dos temas que ele vem se destacando cada vez mais em sua defesa. Temas extremamente atuais (Sherazade, Papa Francisco, União Civil versus casamento de pessoas do mesmo sexo, direito das prostitutas, reforma política e liberação das drogas) são expostos sem meios termos. Onde nós nos encontramos novamente é na forma de falar dos assuntos utilizando como referência Sontag, Bourdieu, South Park e Sandrinho, da novela A próxima vítima.

Jean conclui o livro com um lindo texto sobre educação e pensamento, refletindo sobre a fome de saber, que só nasce depois de ter matado a fome de comer. De novo veio a sensação de que fui eu que escrevi aquele livro, porque o direito ao saber é algo que eu sempre defendo.

Lido o livro, foi o momento de lidar com o medo de fazer um trabalho ruim e de enfrentar a insegurança de não ter feito um curso de jornalismo (O que eu pergunto para ele? Eu posso falar o que eu não gostei no livro? Fica feio se eu perguntar quem arrumou o cabelo dele para o evento?). Para isso, eu contei com meus dois amigos jornalistas mais à mão: Rafael – amigo que eu buscava até mesmo pra saber o que era o “sutiã” da notícia – e Kirk – alguém recente que apareceu na minha vida e que me pôs em contato com o pessoal para fazer este trabalho -, eu os usei como editor, pois eles saberiam me dizer para onde eu poderia conduzir o texto.

O lançamento do livro do Jean Wyllys me deu muitas coisas: a primeira oportunidade de ter uma matéria minha publicada em um veículo de comunicação de Brasília, o contato com pessoas legais e, ao que tudo indica, flores que vão frutificar num futuro próximo. A única coisa que faltou foi um beijo que eu deixei de ganhar numa despedida boba na rodoviária na noite do evento. Mas tudo bem, outros livros virão.

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4 comentários em “QUANDO DESCOBRI QUE EU HAVIA ESCRITO UM LIVRO

  1. Ione Alves
    25 de junho de 2014

    Ítalo, parabéns pela matéria sobre o lançamento do livro e também por este post. Ambos mostram aguçado talento para captar sentimentos, sensações e detalhes, traduzindo-os em textos.
    Não tenho dúvidas de que você está no caminho certo e de que, muito em breve, ouviremos muito o seu nome em grandes matérias e coberturas jornalísticas….

    Um abraço – IONE

    Curtido por 1 pessoa

  2. Edvaldo
    1 de julho de 2014

    Adorei o texto.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 16 de junho de 2014 por em Literatura, Livros, Memórias e marcado , , , .
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