Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

A AMA DE JULIETA

amajulieta

Eu tive um sonho estranho.

Quem me conhece sabe que eu tenho muitos sonhos estranhos, que dificilmente os esqueço e que sempre busco saber o significado deles.

No sonho, eu era a ama da Julieta, na história de Romeu e Julieta. Não era como se fosse uma montagem da peça, a história acontecia de verdade e eu era a ama. (Para quem não lembra, a ama era uma velha dama de companhia da Julieta que junto com o frei arquitetam e executam o plano para ajudar o casal e que termina com a morte dos dois. Será que eu dizer que eles morrem é considerado spoiler?) Só que no meu sonho tinha um acontecimento diferente da escrita por Shakespeare: eu era a única testemunha do casamento dos pombinhos. Quer dizer, o frei os casava escondidos, de madrugada, mas para o casamento ter validade era preciso ter ao menos uma testemunha e, no caso, fui eu – a ama.

Acordei com aquilo na cabeça. Achei engraçado eu como uma velha senhora gorda que acredita no amor deles. Alguns de vocês já me viram ao vivo: não sou nem velha, nem gorda e tenho minhas reservas à ideia de amor apresentada naquela peça. Levantei da cama e fui para o trabalho.

Às dez da manhã toca meu telefone. Era uma amiga que namora um outro amigo meu.

– Oi, gata. Diga lá.

– Ei, querido. Tudo bom? Quero te pedir um favor – me falou ela com a voz doce de quase sempre.

– Pode pedir.

– Bem, é o seguinte: a gente decidiu se casar e eu quero te convidar para ser testemunha. Você aceita?

Fiquei muito feliz pelos dois, mas não pude gritar no telefone, afinal não é de bom tom gritar no trabalho, a menos que o prédio esteja pegando fogo.

– Claro que aceito! Que dia vai ser? Quero aprontar uma roupa bem bonita para a ocasião.

– Hoje ao meio dia.

– O que? Como assim? Tá louca? E você só me avisa agora? Hoje?

– É que a gente não queria transformar isso em um evento. Então só seremos nós e você.

casamento-secreto

Fiquei sem reação. A situação era muito louca e a confiança depositada em mim bateu forte em meu coração. Me segurei para não soltar qualquer clichê de um momento como esse, mas era impossível.

– Tá bom, eu vou, mas como só serei eu vou representar todo mundo: a mãe da noiva, a testemunha, os padrinhos e o amante que vai se levantar quando o juiz disser: Fale agora ou cale-se para sempre.

Ela riu e aceitou minhas condições.

Não fiz mais nada direito no trabalho, não me saía da cabeça essa ideia maluca de que daqui a pouco eu seria a única testemunha do casamento dos meus amigos e, pior, que eu não poderia contar para ninguém. Só a alegria que eu sentia para pesar e manter a minha língua dentro da boca.

Pedi para sair um pouco mais cedo do trabalho por motivo de: EM NOME DO AMOR. Engraçado como essa palavra abre portas, ninguém nem faz cara feia para você. Entrei no ônibus e pensei em algo que só a mãe da noiva pensaria. “Eu aposto que ela não comprou nenhum buquê”! Busquei rapidinho no Google uma floricultura nos arredores do cartório. Comprei 6 rosas brancas e pedi para a moça enrolar os talos em uma fita. Enquanto isso, aproveitei para contar a história de amor que eu estava indo testemunhar. Duvido que ela já tenha ouvido uma história como aquela.

Foi bom também porque acalmou um pouco a minha vontade de falar para alguém.

Cheguei ao cartório e os encontrei sentadinhos esperando sua senha. “Casamento Expresso – F 007”. Casamento express?! O que não são os tempos modernos?! A pessoa casa no horário do almoço para voltar para o trabalho.

Entreguei meu presente de casamento. Acertei em cheio, ela não tinha tido tempo de pensar em um buquê. Ah Julietas, só pensam em seus Romeus e esquecem do resto. Por isso que morrem…

2009 Turma da Mônica Romeu e Julieta — Panini — set09

Uma das melhores versões do clássico.

Na cerimônia, não aguentei. Lágrimas caíram. Impossível que não caíssem. Já pensou estar presentes no casamento de Romeu e Julieta? Duvido que não chorassem também.

Na hora das assinaturas, percebi que o tabelião havia me casado também. Lá estava “estado civil: casado”. Tive que pedir para mudar, pois ele deve ter se esquecido que a ama nunca se casa.

No fim, não resisti à piada. Abracei Romeu e disse bem sério:

– Eu estou chorando não porque perdi uma filha, mas porque ganhei um filho!

Depois todo esse amor e felicidade, voltamos cada um para sua repartição. Eles com o estado civil alterado; já eu, com uma lembrança que jamais vou esquecer na vida estampada no meu sorriso e nas lágrimas pingadas na camisa.

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2 comentários em “A AMA DE JULIETA

  1. samia forte
    22 de julho de 2014

    Uma delícia ler seus textos. Sempre leves, inteligentes, intrigantes e interessantes. Que saudade de vc e que orgulho do escritor que vc se tornou. Sou sua fã.

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      22 de julho de 2014

      Own, meu bem. Grande parte do que eu faço hoje aprendi com você, que foi das grandes professoras da minha vida e das amigas mais queridas.

      Muitas saudades de ti.

      Beijão

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Publicado às 24 de junho de 2014 por em Literatura, Memórias e marcado , , , .
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