Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

VALESCA GONZAGA & CHIQUINHA POPOZUDA [Parte II]

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No post anterior (link) foram vistos alguns pontos de interseção entre a história musical de Chiquinha e Valesca. Hoje continuamos refletindo sobre o que essas figuras representam para a história das mulheres no Brasil.

Esta mulher imoral e sem pudor, que se separou do marido, teve filhos de mais de um homem sem ser casada com eles e andava com pessoas da mais baixa estirpe, tocando ritmos indecentes e que achava que fazia algum tipo de arte (de novo esclarecendo, estou falando da Chiquinha Gonzaga) esteve presente na invenção do choro, sendo uma das primeiras choronas. Além disso, foi a primeira mulher a reger uma orquestra conquistando o título de a maestrina (esta palavra nem existia e precisou ser inventada só por causa dela); encabeçou protestos quando o transporte público deixou de ser de graça, passando a ser pago (quer reivindicação mais moderna do que essa?); compôs a primeira marchinha de carnaval da história (Ô abre alas); e ainda teve tempo para mexer com a moda feminina.

No Rio de Janeiro do final do século XIX e início do XX, mulher de respeito não saía de casa com a cabeça descoberta. Mulher tinha que usar chapéu. Acontece que Chiquinha vivia do seu trabalho e não tinha dinheiro sobrando para comprar um novo, mas tinha que sair para resolver uma coisa. Olhando para as cortinas da sua sala, ela viu uns laços de fita a segurá-las. Pronto. Pegou um dos laços e prendeu no cabelo. Não tinha chapéu, mas não estava com a cabeça descoberta. Isso gerou um escândalo noticiado nos jornais da época e virou moda entre as mulheres de pensamento mais moderno.

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Valesca usa roupas justas e decotadas, mas o que realmente chocou o Brasil foi quando colocou uma quantidade considerável de silicone na bunda. Logo gritaram que era horrível, desnecessária e um afronta às famílias, pois influenciaria maleficamente às crianças. Hoje é a coisa mais natural colocar silicone e eu não conheço ninguém que resolveu por uma prótese por causa dela.

Ninguém tem dúvidas que Chiquinha é um símbolo da luta das mulheres no Brasil. Já Valesca… ela não se apresenta como tal, mas quando questionada, não exita em defender a liberdade do corpo feminino, do seu prazer e a sua igualdade ao homem. Porém, quando perguntada qual seu “fundamento filosófico” para a defesa das mulheres, ela simplesmente diz que é a vida prática. O que ela viu que acontece com as mulheres da sua família e dos seus arredores. Chiquinha também não tinha um embasamento teórico para isso, na verdade ela muito mais brigava por anseios seus. Se ela queria fazer algo e não poderia apenas porque era mulher, pronto. Era um ponto a se questionar. O que elas têm em comum é que ambas sabem que são mulheres e que ser mulher não está numa definição externa, mas, dentre outras coisas, de não ter medo ou vergonha de fazer o que gosta.

É incrível que elas duas sejam julgadas pelas mesmas regras morais. O que isso significa? Que a sociedade brasileira não mudou em nada desde quando Chiquinha começou a tocar e se separou do marido que a proibia de sentar ao piano, lá pela metade do século XIX? Músicas safadas feitas por homens sempre existiram mas mulheres que se propõem a fazer algo assim recebem críticas que vão além do valor artístico: não só a música é ruim como aquela ali é uma p***!

Em sua entrevista para a Revista TPM de junho desse ano, Valesca foi o tempo toda pressionada a explicar como uma mulher que canta “my pussy é o poder” não tem namorado, não se apresenta como uma louca na cama nas 24 horas do dia, mas acha que entre 4 paredes vale tudo, e que acredita no amor e no casamento. Na mesma entrevista ela ainda defendeu todo o direito de cantar esse verso, pois acredita no poder da pussy. Se ela está sendo feminista ou machista é uma debate para os outros. Ela, como uma verdadeira artista, faz seu trabalho e a sociedade que lide com suas músicas e coreografias.

Não sei se no futuro o funk de Valesca vai representar a história musical do século XXI. Pode ser inclusive que o nome dela suma completamente. Ou o de Chiquinha suma completamente. Só sei que, por enquanto, é muito bom mexer a pélvis e ir até o chão com Beijinho do ombro.

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4 comentários em “VALESCA GONZAGA & CHIQUINHA POPOZUDA [Parte II]

  1. feupsselipe
    7 de julho de 2014

    Acho muito interessante essa discussão e acrescento um ponto.
    As mulheres têm sido relativamente empoderadas ao longo do tempo, mas, dentre tantas dívidas, a liberdade e o domínio sobre o próprio corpo parecem ser a pauta do momento. É claro, as mulheres continuam sendo tratadas como objetos que podem ser olhados, julgados e violados das mais diversas formas, inclusive sob o pretexto de “elogios”. O que é medonho!!!!!
    A Valeska, de certa forma, quebra este paradigma e fala abertamente sobre o prazer feminino (nunca esqueço da música Mama). Mas, será que ela também não reforça a coisificação da mulher quando, pelo menos aparentemente, reivindica “apenas” o domínio sobre o próprio corpo?
    Digo isso porque a comparação com a Chiquinha Gonzaga me pareceu interessante, mas frágil. Chiquinha contestava todo o pensamento de sociedade. Ela transformou o papel da mulher em diversos âmbitos e não é a toa que o seu texto menciona as revoluções na música, na moda, na política….

    Valeska, não. Valeska, no geral, é à favor do pensamento vigente quando legitima as relações de domínio do dinheiro e da aparência como sinônimos de poder (“Do camarote quase não dá pra te ver” do beijo no ombro é a expressão máxima disso).
    Nesse sentido, a funkeira é um símbolo de total subserviência da essência à aparência e não se difere das mulheres melancias, peras, das panicats, etc…

    É claro que Valeska têm uma pauta muito interessante e que vale sim a pena ser discutido, valorizado e claro….dançado! hahaha
    Agora afirmar que ela é a “Chiquinha Gonzaga do nosso tempo”, me aprece um pouco de exagero!

    Curtido por 2 pessoas

    • Ítalo Damasceno
      8 de julho de 2014

      Muito bem, Felipe, então vamos lá:

      Eu tentei neste texto não colocar a Valesca como um símbolo feminista porque ela mesma não se coloca assim. Ela se posiciona como uma mulher que acha que as mulheres tem direito a serem como querem e essa é uma posição que eu respeito tremendamente. Tenho sérias desconfianças com quem acha que mesmo tendo uma opinião que eu concorde todo mundo deve segui-la e isso ela não faz.

      Não vou saber te dizer se , na real, Valesca promove a coisificação do corpo feminino ou liberta-o, mas neste ponto eu a justifico relembrando de onde ela vem. O próprio “funk ostentação” coisifica tudo. Os homens também se tornam objeto de admiração e de expectativa de desempenho sexual titânico porque agora estão pagando “de patrão” – expressão que eu odeio principalmente quando eu vejo filinhos de papai dizendo. Daí já tiramos o núcleo da questão do feminismo e passamos para o social/econômico (destacando que estão todos juntos e misturados).

      Chiquinha tem seu lugar muito firme no movimento feminino. Valesca ainda não, até porque ela ainda está viva e pode tentar destruir tudo o que ela já construiu; porém, forçando os limites como ela sem dúvida faz, nos faz pensar, discutir e discordar.

      Eu tomei muito cuidado justamente para não dizer que ela seria “a Chiquinha Gonzaga do nosso tempo”, mas os pontos em comum entre ambas estavam gritando diante dos meus olhos. Tenho plena convicção, e que fique registrado, não acho que Valesca seja a nova Chiquinha Gonzaga, assim como nunca achei que Sheilla Melo era a nova Carla Perez.

      Eu concordo contigo nas ressalvas quanto ao conteúdo feminista das músicas dela. Eu nunca entendi a razão dessa rivalidade feminina, matéria prima de muitas das suas músicas de sucesso. Eu só não quero incorrer no erro de condenar alguém por algo que não é propriamente dela, mas muito mais fruto das próprias regras sociais que ela aprendeu e que devido a tão grande exposição podemos mudá-las, porque antes ninguém notava.

      Valeu pelo seu comentário e espero ter ajudado ao debate. Bj

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  2. Leo Peixoto
    17 de agosto de 2014

    Li os dois post e apenas os comentário desse. Ítalo, adorei sua reflexão e acho que ícones também são invenções. Chiquinha foi uma dessas boas invenções e Valesca poderá vir a ser. Na verdade, acho que já está sendo. Amei, seus textos!! Grande abraço!!!

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      18 de agosto de 2014

      Obrigado, Leo. Fico muito feliz pelo seu comentário e sinta-se bem vindo para acompanhar o blog. E vamos ver o caminho a ser seguido pela Valesca rsrs.

      Desde que eu escrevi estes textos ela já fez várias outras coisas que me deram orgulho de tê-los postado, como se oferecer para ajudar a pagar a viagem da moça que fez seu mestrado sobre funk, Valesca e feminismo para apresentar seu trabalho nos EUA.

      Abração

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Publicado às 7 de julho de 2014 por em História, Músicas e marcado , , , , .
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