Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

REBULIÇO

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Estreou ontem à noite a nova novela das 11 da Globo, O REBU, remake de uma obra prima de ousadia na teledramaturgia de Braulio Pedroso que foi ao ar em 1974 e agora é escrita por George Moura e Sérgio Goldenberg – escritores de O Canto da Sereia e Amores Roubados -, com direção de José Luiz Vilamarim.

A estória se desenrola ao longo de uma festa que acontece um assassinato e nas primeiras horas do dia seguinte, em que acompanhamos a investigação policial, com cenas sem linearidade cronológica, misturando passado e presente, para descobrir quem o cometeu. Não foi um estouro de audiência na época, porém sempre foi lembrada pela genialidade do formato e o enredo mirabolante. Para começar o público não sabia quem matou e nem quem morreu.

Na versão que foi ao ar ontem fomos apresentados aos principais personagens ao som de uma trilha sonora contagiante, uma fotografia linda, um figurino maravilhoso e interpretações de fazer o coração bater mais forte logo de cara. Como não amar Cássia Kis Magro segurando um cigarro e dizendo para Patrícia Pilar “Meus vinte anos foram ótimos. Como foram seus vinte anos, Angela”? E o que dizer de Sophie Charlotte pegando o microfone para cantar Sua estupidez, de Erasmo e Roberto? Vera Holtz se acabando na pista com um copo de uísque na mão é um clássico revisitado desde sua interpretação de Santana, em Mulheres apaixonadas.

O nome “rebu”, que depois virou sinônimo para festa, ao contrário do que muita gente pensa não veio de “rebuliço”, mas da expressão “rebuceteio” criada por Ibrahim Sued, famoso colunista social naquele tempo, que usava para designar “festa” – ou um aglomerado de mulheres bonitas.

Vinheta de abertura de 1974.

Vinheta de abertura de 1974.

Na primeira versão, o banqueiro Conrad Mahler recepcionaria a princesa italiana Olimpia Boncopagni e para isso promove a tal festa em sua mansão. O crème de La crème da sociedade brasileira, alguns penetras, personalidades e empresários são os convidados do primoroso regabofe que é ainda temperado por dramas pessoais e acertos de falcatruas milionárias. Tudo o que uma boa trama policial precisa para atrair a atenção do telespectador.

Além da forma inovadora de apresentar a trama, a novela ainda arriscou nos temas. O anfitrião tinha um “protegido” que tudo levava a crer ser na verdade seu amante, e o ciúmes de se ver trocado por uma mocinha o fez cometer o assassinato. Claro que a censura não permitiu que isso fosse dito abertamente e ainda obrigou que o personagem do “protegido” fosse “adotado” legalmente por Mahler, mas mesmo assim era muito estranha a relação dos dois e os ciúmes do banqueiro. Na versão atual, o banqueiro passou a ser uma mulher, empresária, dona de uma construtora (Patrícia Pilar) e o “protegido” também, sendo agora interpretada por Sophie Chalotte, porém o triângulo amoroso se mostrou logo desde a primeira cena. Não à toa, a música de propaganda da novela era “Bizarre Love Triangle” do New Order (link), numa referência óbvia à situação.

Na época, um primoroso trabalho de pesquisa sobre as regras de etiqueta para um evento desse porte foi feito pelas consultoras de arte Tiza Oliveira e Lila Bertazzi e, para melhorar, enquanto a novela passava, várias situações foram questionadas pelos colunistas sociais e precisaram ser respondidas. Dentre os mais interessantes, está o caso do colunista que disse achar estranho que em um evento como aquele, os convites não seriam enviados por correio, mas entregues em mãos por um mensageiro. As consultoras responderam que os convites foram entregues em mãos e, o que ele achava ser o selo, na verdade era o brasão de Mahler. Noutra, o próprio Ibrahim questionou que numa festa como aquelas os convidados não mostram convite na porta, e a resposta veio logo em seguida dizendo que o único que fez isso foi o personagem Boneco (interpretado por Lima Duarte na época e na nova versão é Jesuíta Barbosa com o nome de Alain), que vai na festa porque era um ladrão e, ao roubar uma casa, leva também o convite. As dúvidas chegaram até a exaustão quando questionaram por que as velas nos candelabros permaneceram apagadas ao longo de toda a festa. “Cada gravação dura quase cinco horas. Não há vela que aguente!” responderam  no melhor estilo até etiqueta tem limite.

Cássia Kis Magro dentre os destaques do primeiro capítulo e forte candidata para o figurino mais bonito.

Cássia Kis Magro dentre os destaques do primeiro capítulo e forte candidata para o figurino mais bonito.

Agora falando da nova novela, ela já entra no ar com uma decepção enorme para mim. A Globo não manteve o mistério do “quem morreu”, revelando logo no primeiro capítulo que Bruno, personagem de Daniel de Oliveira, é o morto. Quando passaram as propagandas na TV e foi mostrado um corpo de terno boiando, eu já fiquei chateado, pois esta era uma pista já muito importante de quem poderia ter morrido. No entanto, ao pesquisar sobre a primeira versão descobri que o corpo de terno também aparecia boiando na piscina. O turning point da história se dava quando, no meio da novela, as mulheres numa brincadeira começam a cortar os próprios cabelos e se vestirem de homem. Nem preciso dizer que eu caí da cadeira com tão grande genialidade e, realmente, a vítima era uma mulher, justamente a que fazia o papel referente ao de Bruno no triângulo amoroso da anfitriã acima descrito. Ou seja, a vítima é a mesma nas duas versões.

Juro que não entendo – diante do grau de ousadia das séries americanas que hoje são acompanhadas pelo público brasileiro com tanta facilidade e assiduidade – a falta de colhões para acreditar que os mesmos não aceitariam uma história sem saber quem morreu. O Rebu atual só terá 36 capítulos, enquanto que a primeira versão só disse o nome do assassinado no capítulo 50 dos 112 totais. Sério que não dá para confiar na inteligência do espectador e arriscar a audiência para fazer algo totalmente inesperado? Minha animação por ver o desenrolar da trama caiu alguns pontos, mas a ansiedade, curiosidade e empolgação de ver um talento como o de Braulio Pedroso sendo resgatado é algo que não vai me deixar sair da frente da TV nas próximas nove semanas.

O time de roteiristas já marcaram dois golaços (O Canto da Sereia Amores Roubados)– não reparem a metáfora, estou escrevendo logo depois da final da copa – e este é um projeto maior. A Globo acertou na indicação dos nomes. Agora levando a metáfora às últimas consequências, acho bem pouco provável que eles percam de 7×1. É possível, principalmente se o elemento ousadia ficar de fora, mas também dá para dar um show de bola, pois estarão jogando em casa e, a ver pela minha pessoa, com a torcida inteiramente a favor.

Principal fonte para escrever esse texto: http://www.teledramaturgia.com.br

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4 comentários em “REBULIÇO

  1. Notempo
    15 de julho de 2014

    Fiquei atônita vendo todo aquele rebuliço. E adorei. Gostei muito do texto. A análise em paralelo com a primeira versão me fez ter vontade de ver. Onde tem? Concordo contigo que poderiam ter ousado mais, mas é o que temos no momento. Aguardando o que vem pela frente. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      15 de julho de 2014

      Tem muitos capítulos no youtube. Ontem logo depois que acabou eu assisti o antigo. A abordagem é totalmente diferente.
      Não tem em dvd nem nada, mas no site Nilson Xavier, que eu coloquei no final do meu texto, tem o máximo de informações que você poderia ter sobre a novela.
      Vamos acompanhar os próximos capítulos 😉

      Curtido por 1 pessoa

  2. Pingback: POUCO REBUCETEIO E MUITA POLÍCIA | Eu tô ficando é velho, não é doido não!

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Publicado às 15 de julho de 2014 por em História, Novela, TV e marcado , , , .
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