Eu tô ficando é velho, não é doido não!

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QUEM TEM MEDO DE WILLIAM SHAKESPEARE?

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Eu tinha muito medo de Shakespeare, muito mesmo. Achava que, se eu lesse algo dele, não entendesse, me sentiria burro e ia entrar em depressão. Essa sensação me acompanhou por bastante tempo, talvez tempo demais.

Duas coisas quebraram essa barreira entre nós. Primeiro, durante uma entrevista, Jô Soares disse algo do tipo: “Shakespeare não era um maluco, ele escrevia sobre o que estava se passando no mundo. Se, o que ele falasse, não fosse algo sobre humanos, não teria sido o sucesso que foi”. Faz sentido. Se suas peças tratassem sobre sentimentos extremamente confusos, profundos e suas palavras de forma por demais truncadas, ele não seria remontado até hoje.

A segunda foi a série SOM E FÚRIA, produzido pela O2 e que foi ao ar na TV Globo. A série conta, em doze capítulos, a história de uma companhia de teatro municipal que todo ano promove um festival de clássicos, incluindo sempre algumas peças dele. Este é um remake de uma série canadense adaptada pelo próprio Fernando Meireles, diretor da versão brasileira.

Nos primeiros episódios há o desafio de transformar um fictício galã de novela das 7, e que já estrelou Malhação, em Hamlet. Daniel de Oliveira interpreta o tal cara e está sensacional – ele próprio já teve seu momento de brilhar na novelinha adolescente e em uma novela das 7 -, demonstrando todo o terror, não só do ator que terá que encarar talvez o maior papel já escrito para o teatro, mas também o significado das perguntas que a estória nos faz. Acompanhar o drama do príncipe dinamarquês nos faz ver que Shakespeare não estava falando apenas das dúvidas de um homem da alta nobreza que é atormentado pelo fantasma do pai em busca de vingança. Ele também falava de mim e dos meus questionamentos sobre o que fazer da minha vida. Se tenho coragem de enfrentar o que acho que o mundo me impõe, lutando contra a tentação de  me entregar à loucura – porque a vida adulta me mostrou que ficar louco é uma opção real – e correndo risco de morte todos os dias da vida. Por isso, “ser ou não ser” é a questão que respondemos a todo segundo na nossa existência. Daí em diante, nunca me senti tão próximo do dramaturgo a ponto de pensar que ele pode me mandar um whattsapp a qualquer momento me chamando para dar um rolê.

Shakespeare no Brasil.

Shakespeare no Brasil.

Passado o maior medo – Hamlet -, saí em busca das outras peças e, que surpresa, as entendi e em todas me encontrei. Em As alegres comadres de Windsor, que tem uma versão brasileira com Zezé Polessa e Eliza Lucinda, está a deliciosa comédia de erros e da inteligência de pessoas consideradas inferiores que passam a perna nos que tentam ser mais espertos em situações muito próximas às vividas por Chicó e João Grilo. Verdadeiras comédias românticas em Sonhos de uma noite de verão e Muito barulho por nada. Até mesmo situações em que a questão de gênero e homossexualidade podem ser tratadas, como Dia de Reis. Romeu e Julieta dispensa qualquer comentário, mas pode ser definida como a maior história de amor impossível de todos os tempos e que jamais existiria, ou, numa interpretação mais cínica, como a maior verdade sobre o amor: dois jovens que se apaixonam e aí dá merda.

Tudo ia bem no meu caminho com Shakespeare até que eu vi Macbeth.

Macbeth: apenas a minha peça favorita e uma das maiores histórias da minha vida.

É simplesmente uma peça sobre o mal. O mal na sua essência mais pura. Você pode até dizer que Macbeth não é uma pessoa má, mas ele é possuído pelo mal e toma atitudes de fazer arrepiar os pelinhos. Para melhorar, ele está acompanhado por, talvez, a verdadeira maldade, Lady Macbeth.

Tudo é tão pavoroso que as primeiras falas são de três bruxas, ou seja, criaturas originalmente maléficas. Elas cruzam com Macbeth e prevêem que ele será rei. Então ele põe em prática um plano para tomar o trono que envolve matar o atual rei, o qual está hospedado em sua casa, matar seus sobrinhos que ainda são crianças e manter seu país em guerra e seu povo apavorado. A presença do mal é tão forte que, numa cena que em nada influencia na estória principal, cavalos entram num delírio e começam a comer uns aos outros enquanto correm em direção a um abismo, se jogando no mar.

As bruxas.

As bruxas.

Shakespeare em versão japonesa de Akira Kurosawa.

Shakespeare em versão japonesa de Akira Kurosawa.

Todas as falas são carregadas com um tom de mau presságio, de aviso de cuidado, e de ameaças. Até a cena final não há possibilidade de bondade, nem de final feliz, e tudo isso carregado pela força de Lady Macbeth para que seu marido execute sem pestanejar o que for preciso para mantê-los no trono.

A estória é tão moderna que, certa vez, eu jantava com uma prima e seu namorado enquanto contava a história da peça. Quando acabei, o namorado me disse:

– Que legal. Como é mesmo o nome desse jogo de vídeo game? Tem pra Play Station 3?

Por fim, vendo Shakespeare Apaixonado, um filme que eu não gosto, me dou conta que além do sentimento de estar incluído no mundo, Shakespeare também precisava comer. Ele escrevia enquanto seus credores batiam à sua porta exigindo seus pagamentos, o que só aconteceria se ele entregasse as peças aos teatros, recebendo o valor acertado pelo seu trabalho. Provavelmente por isso ele tenha produzido tanto, afinal viver é caro. Para um escritor, poucas coisas são mais produtivas do que a possibilidade da miséria. Neste ponto há a identificação total entre nós dois. Dos quinhentos anos que nos separam, eu, como alguém que sonha em viver da escrita, saber que tenho como companheiro esse cara que fez coisas tão massas, não me sinto mais confortável em sentir medo dele.

Então, fica a dica: encare Shakespeare.

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3 comentários em “QUEM TEM MEDO DE WILLIAM SHAKESPEARE?

  1. renardfox
    21 de julho de 2014

    Estou há tempos querendo ler Shakespeare! Teu texto é mais um incentivo para que eu o faça logo.

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      21 de julho de 2014

      Lê Tales. Tu vai adorar. Além de ser uma aula de como escrever as estórias são sensacionais. ^^

      Curtir

  2. Notempo
    21 de julho de 2014

    Li Shakespeare pela primeira vez nos tempos de universidade. Me apaixonei. Só conhecia superficialmente das adaptações cinematográficas. A última que li foi Macbeth também. A preferida sem dúvida é Otelo. Gosto do lance da intriga que é muito forte por lá. Os sonetos também fascinam. Tem muito material pra se debruçar, recomendo pressa aos que ainda não iniciaram. É bom de verdade, amigo Ítalo.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 21 de julho de 2014 por em Literatura, Livros, Memórias, TV e marcado , , .
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