Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

VOLVER A LOS 17

cartaz

A adolescência é uma fase determinante na vida de qualquer pessoa, no entanto poucas vezes ela foi retratada com verdade nas obras de arte. A maioria dos filmes, livros e séries de TV não se esforçam para ressaltar além da característica infantil e antipática ainda presente nas personalidades dessa faixa etária. Não é o caso de A VIRADA DE BETHANY (SASSY PANTS, 2012), filme feito para a TV a cabo, uma deliciosa produção sobre a dolorosa e necessária transformação em direção à vida adulta.

Bethany (Ashley Rickards) está prestes a completar dezoito anos e sofre com os desmandos da mãe (a doidinha da Anna Gunn, esposa do Walter de Breaking Bad), a qual pirou depois que o marido a largou para viver plenamente sua homossexualidade, casado com uma bichinha pão-com-ovo super legal interpretado por Haley Joel Osment (o garotinho de O sexto sentido, lembra?). Assim que Bethany fica de maior, vai embora da casa da mãe de pijama mesmo e se manda para o paraíso de quase todos os filhos de pais separados: a casa do pai. Achando que viverá uma bela vida, super legal, com muita curtição e baladas, o que ela encontra é um pai vivendo um relacionamento adolescente, que tem camisinhas com sabores no banheiro e uma completa falta de grana. Mas tudo bem, nada disso vai atrapalhar seu projeto e nossa heroína sai em busca de emprego, arranjando uma vaga no lugar onde ela mais queria trabalhar: uma dessas mega store de departamento com duas maluquetes, com grande cara de golpistas, como mentoras.

A jornada de Bethany – esse poderia ser o título do filme – quase transforma a história num road movie do tanto que ela roda em busca do seu sonho: entrar numa faculdade de moda. Todos os outros personagens parecem que pesam sobre os ombros da garota e, mesmo os que querem ajudar, uma hora atrapalham demais, sendo que o pior é a mãe, vilã-mor em muitas histórias de adolescentes. No caso desta senhora, ela não tem exatamente uma razão que justifique suas loucuras. É uma mulher ferida pelo que entende ser uma traição do marido, apavorada pelo temor de ser abandonada pelos filhos – tão tal que dá aula para eles em casa mesmo -, tem uma péssima relação com a avó dos meninos porque esta é uma mulher que não liga nem um pouco para a opinião alheia e fuma desbragadamente.

beemãe

Quantos e quantos filmes já foram feitos sobre jovens que, para fugir da incompreensão dos pais, fazem escondido a inscrição no curso de moda. Acho que esse é o curso favorito, segundo os produtores de cinema, dos oprimidos pelos pais. Taí, que tal fazer um filme sobre alguém fugindo de casa para fazer um curso de medicina, ou, sendo mais ousado, de direito? Afinal, enfrentar os pais é algo que vai além de fazer este ou aquele curso, é sobre você aceitar sua própria personalidade e lidar com os perrengues disso. Sempre dá a impressão de que “a situação já não é boa e piora porque a pessoa ainda decide fazer um curso desses”, o que é horrível.

Esta fase da vida, em que a pessoa começa a ser cobrada de escolhas acertadas com a apavorante sensação de não poder errar e nem mudar de ideia, quase sai da dramédia e periga se tornar um terror pavoroso. Vide outros filmes sobre adolescentes – Sociedade dos Poetas Mortos, As Vantagens de ser Invisível – a ideia de “você tem todo o tempo do mundo” é envolta pela capa do “vê se não erra para não se arrepender depois”. No entanto, nenhum desses filmes mostram o depois do happy end, ou seja, a fase em que eu estou quando chega o retorno de Saturno e somos confrontados com as escolhas feitas neste momento.

O que nos cativa nessa garota é sua inteligência para enfrentar as questões que já são difíceis na vida, como a insegurança de escolher um rumo. Ela vai tomando decisões, seguindo direções, mais errando que acertando, mas com os olhos num objetivo maior. Leva rasteira de muita gente e também da própria vida, porém sua doçura amolece as pedras mais duras do caminho. Um momento que merece destaque é quando ela volta à loja de departamento para rever as antigas colegas que aprontaram para ser demitida e descobre que elas estão muito pior que ela, apesar de continuarem dizendo que serão super ricas e famosas. Neste ponto é que a mãe de Bethany me decepciona particularmente: ela deu sim uma ótima educação à filha comparada às das outras pessoas da idade dela que cruzam seu caminho, o problema é que a própria não confia no que ensinou. Ensinou a menina a andar, mas tem medo de soltar sua mão para que ela dê seus primeiros passos sozinha.

A protagonista também aprende algo muito importante sobre seus pais. Gritar, bater porta, xingar, ser do contra e fazer o oposto do que lhe mandam é um momento da relação pais e filhos, contudo não é o que a define. Depois de muito barulho para ser ouvida e provar que tem controle sobre a própria vida, ela questiona se realmente era necessário todo esse escândalo. Talvez fosse, talvez não, mas não tem jeito, todo mundo faz e, se tiver filhos, vai escutá-lo quando chegar o momento.

Recentemente conheci alguém como Bethany: nasceu numa família super complicada, que não lhe compreende, tem na faixa de 18 anos e seu sonho é trabalhar com moda. Até agora a vida lhe colocou situações muito difíceis, mas saber onde quer chegar e dar um passo de cada vez é fundamental. Pensar que se você andar direito não haverá tropeços, também é um erro.  Eu espero que ele veja este filme e que reencontre a esperança, pois para mim, que já estou nos 30, ela veio junto com o The End .

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Um comentário em “VOLVER A LOS 17

  1. Ben Oliveira
    28 de julho de 2014

    Adorei a dica de filme! Adoro essa atriz. Ela é a protagonista de Awkward, uma série em que ela interpreta uma jovem blogueira-escritora e seus conflitos adolescentes.

    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 24 de julho de 2014 por em Família, Filmes e marcado , , , .
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