Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

FIM DO SONHO?

mpdc

Chegou ao fim a novela mais mágica já feita em todos os tempos e não porque antes não havia existido novelas com magia, mas porque nesta a magia estava na forma de contar a estória.

Em MEU PEDACINHO DE CHÃO, seus personagens e cenários tinham uma ousadia estética nunca antes vista, o que foi capaz até mesmo de segurar uma trama sem grandes reviravoltas e que poderia soar “sem sal” para os atuais padrões da teledramaturgia. Se dissesse apenas que a novela se tratava de uma professora que tentava trabalhar em uma cidade onde o chefe político não queria sua presença, provavelmente não atrairia nenhuma atenção por conta do anacronismo da situação. No entanto, o lado artístico em todos os outros aspectos de sua produção deu uma vida inteiramente nova aos moradores da vila, cativando os telespectadores a ponto de provocar a vontade de ver o capítulo do dia seguinte, mesmo não tendo exatamente um grande gancho.

Uma série de elementos contribuiu para o resultado visto na TV: seu escritor, Benedito Ruy Barbosa, entregou todos os 104 capítulos escritos antes mesmo de a novela ir ao ar, o que deu a chance ao diretor, Luís Fernando Carvalho, de planejar com mais eficiência os rumos da sua direção; a própria experiência de Luís Fernando desde HOJE É DIA DE MARIA, obra em que ele começou a utilizar este modelo de estética que teve como sua maior obra MEU PEDACINHO; o talento versátil de grandes atores como Osmar Prado e Antônio Fagundes e a surpresa de dois atores que estavam relegados à pecha de sex symbol se despojando inteiramente de seu sex appeal para nos brindar com interpretações inovadoras, verdadeiras e lindas (Juliana Paes e Rodrigo Lombardi). Foi lindo poder ver que Juliana tem a possibilidade de segurar uma interpretação estando com o corpo coberto – uma das poucas desvantagens de quem nasce mais favorecido de beleza.

Agora falando de uma coisa óbvia e uma surpresa. Uma coisa óbvia: Bruna Linzmeyer e a Professora Juliana. Quando fiz o primeiro post sobre a novela das 6 (link), o próprio título do texto era sobre a protagonista de cabelo rosa, porque a regra de ouro de uma novela é que você pode mexer na estrutura de qualquer personagem, menos de seus protagonistas. Estes são pilares morais e servem de exemplos a todos os outros que podem mudar de atitude, passando de bom para ruim, e vice versa. A professorinha chegou na vila causando reboliço, beijou um homem antes de terminar um certo namoro que ela tinha deixado na capital e – choque geral – não casou de branco, casou de rosa! Pode parecer uma questão de moda ou um fato menor, porém Juliana casar de rosa demonstra os muitos segredos por trás da errônea ideia de que esta seria uma novela para crianças. Esse fato somado às várias vezes em que Gina perguntou se ela era virgem (pergunta que nunca foi respondida com clareza), considerando que uma novela joga com a semiótica óbvia de alguns símbolos, sem esquecer que uma casou de branco e a outra não, nos faz supor que…

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Os vestidos de noiva.

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A surpresa atende pelo nome de Zelão interpretado pela nova paixão nacional Irandhir Santos. Este ator chegou ao grande público quando fez o protagonista de A PEDRA DO REINO, série do mesmo diretor da novela. Depois estrelou alguns filmes que ganharam destaque nacional, como Tatuagem, e a série AMORES ROUBADOS no começo do ano. Seu personagem em MEU PEDACINHO não era protagonista, mas o escritor da novela precisou adaptar alguns capítulos por conta do sucesso estrondoso do pistoleiro e a torcida arrasadora para que ele ficasse com o coração da Professorinha. Considerando que na primeira versão, ele era um azarão que não tinha a menor chance, na atual, a interpretação de inspiração equina de Irandhir arrebatou a todos. Cada vez que ele aparecia na tela, o espectador tremia fosse pela lágrima que caía do seu olho ao ver Juliana, fosse pelo medo dele dar um tiro alguém, mesmo sabendo que no revólver que carregava nunca tinha balas. Zelão aprendeu a ler, descobriu a própria imagem diante do espelho e a possibilidade de ficar bonito, enfrentou o terror de mudar por um grande amor e, ao ter o coração partido, foi capaz de fazer nevar na vila por conta da dor que sentia. Só o beijo do seu verdadeiro amor conseguiu trazer de volta o Sol e fazer florir de novo os campos.

No fim, foi revelada a razão de todo esse estranhamento estético. Tudo se passou no quarto de um garoto, fruto da sua imaginação. Era ele quem conduzia os desdobramentos e quem dizia como cada um dos personagens eram imageticamente, portanto era lógico que não se seguisse uma linha de raciocínio do realismo adulto e fidedigno com o que seria o esperado. Luis Fernando Carvalho se utilizou – como vem fazendo há um bom tempo – da liberdade inventiva da infância e da estética de ópera, o que proporciona interpretações exageradas e super divertidas. A ideia de contar uma estória pela visão de uma criança também foi utilizada em HOJE É DIA DE MARIA, sendo, no fim, revelado que tudo não passou de um delírio febril de Maria, enquanto ela estava de cama e sua avó (que era a voz em off que narrava a minissérie) lhe contava as aventuras que a menina se metia.

zelao-irandhir-santos

Refletindo sobre o que era apresentado na tela durante a novela, não dá para não se questionar sobre por que parece que aceitamos muito mais facilmente uma proposta exótica de série americana, mas sempre duvidamos das produções brasileiras. A justificativa de que a estória se passava na cabeça de uma criança, mesmo sendo linda, é isso – uma justificativa. Dá a impressão de que o espectador brasileiro não conseguiria engolir que apenas aquela era a estética do lugar. Por exemplo, nunca vi alguém dizer que vai parar de ver Game of thrones pelo fato de que há dragões em Westeros, mesmo que nem os próprios habitantes daquela terra acreditem muito nessa história, apenas quem já os viu. A novela passou tanto tempo tentando se mostrar como um espelho da realidade que, como foi dito no post citado antes, o alternativo tem se mostrado a opção mais interessante para atrair de novo os olhos do público. O mesmo público que tanto reclama que a novela é sempre a mesma coisa e que “xinga muito no twitter” porque está nevando numa cidade no Brasil.

A luneta de Lepe foi os olhos do telespectador nesses três meses de estória. Fantástica, mas não mentirosa, ela revelou mais do que o inconsciente de uma criança. Revelou também que sonhar na TV ainda é possível.

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9 comentários em “FIM DO SONHO?

  1. Notempo
    4 de agosto de 2014

    Eu sou suspeita pra falar do Luis Fernando Carvalho. Sou fã demais! Vi quase tudo em que ele pôs a mão e fiz um tcc sobre Capitu muito influenciada pela estética diferenciada que me encanta sempre. Infelizmente não pude ver tantos capítulos de Meu Pedacinho de Chão quanto gostaria. Mas, dos poucos que vi (incluindo o último) fui completamente tomada. Era magia mesmo. Pura e simples, vestida de arte por todos os lados. Espero ansiosamente pelo lançamento da Globo Marcas.

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  2. Ítalo Damasceno
    4 de agosto de 2014

    Como assim tu fez um TCC sobre Capitu???? Tu tem que vir de novo aqui para a gente conversar sobre isso. Quero saber super ^^

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  3. Luara Blauth (@PedacinhoDeLua)
    4 de agosto de 2014

    “A justificativa de que a estória se passava na cabeça de uma criança, mesmo sendo linda, é isso – uma justificativa. Dá a impressão de que o espectador brasileiro não conseguiria engolir que apenas aquela era a estética do lugar.”

    Isso, isso!!!
    Por isso que eu preferi achar que talvez aquele menino que tava brincando no final da novela fosse mesmo o Serelepe de sempre!
    Uma justificativa pra mim é desnecessário!

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  4. jheneffyr
    5 de agosto de 2014

    Assim como a minha amiga Luara, tenho a mesma opinião, pois não precisei que me fosse dada uma justificativa pra entender, rir, me emocionar ou apenas me fazer pensar nesssa novela. Tudo era novo, mas ao mesmo tempo tão natural, perfeito, lindo…sentirei saudades eternas e quando sair o DVD, vou comprar, assim como comprarei o CD como meu presente de aniversário. Amei a estética, a forma de contar a história, a forma como nós, telespectadores, nos permitimos sonhar e se aventurar junto aos personagens dessa magnífica novela.#parasempremeupedacinhodechão

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  5. Zilá
    16 de setembro de 2014

    Tremi. Tremi ao ler seu parecer sobre o inverno de Zelão. Eu penso a mesma coisa. Já estava cansada de ouvir só comentários superficiais sobre essa parte da fase de Zelão justamente porque chama a atenção um inverno nevado numa vila de cidade que parece ser no interior de São Paulo. Também, o artifício dele se ver e se conhecer no espelho foi sensacional.Segundo a psicanálise, espelho significa narcisismo e Zelão precisava disso.Precisava ficar irresistível! Ter a coragem de mudar uma tradição herdada do pai foi doloroso e custou muito ao personagem quando ele cortou a ‘crina’. A cena da mudança ficou divina e diferente na montagem e arranjo usados e que foram enriquecidos com a fantástica interpretação de Irandhir. Amei esse personagem, amei a interpretação e fiquei fã de Luiz Fernando Carvalho assim como de Irandhir Santos. Salta aos olhos e nos assalta o aspecto do romance, mas vou ficar por aqui senão meu texto fica longo demais. MPDC foi um sonho que acabou e que deixou saudades. Espero que surjam mais produções deste quilate.

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    • Ítalo Damasceno
      16 de setembro de 2014

      Nossa, Zilá, e eu tremi ao ler seu comentário. Adorei mesmo e, se me permite, te sugiro ver O ROMANCE DA PEDRA DO REINO, série dirigida pelo Luis Fernando Carvalho e também protagonizada pelo Irandir, disponível em dvd. Aliás, te sugiro todas as séries deste diretor e tem todas em dvd.

      Muito feliz de ter alguém como você comentando no meu blog e mais feliz ainda de você ter concordado comigo.

      Seja sempre bem vinda e esteja à vontade.

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      • Zilá
        17 de setembro de 2014

        Grata pela acolhida e pela disponibilidade. Pois é Ítalo, difícil não apreciar coisas boas… MPDC foi uma novela que conquistou muitas telespectadores aqui do sul (moro em P.Grossa-PR), pois foi muito bem feita, numa estética diferenciada como você tão bem comentou. Luiz F.Carvalho é um artista inovador, com certeza. A Pedra do Reino já estou assisitindo e estou amando. Consegui pela Globo Marcas. Depois vou tentar conseguir suas outras indicações(Capitu e Hoje é dia de Maria). Não sei de outras séries, mas depois eu pesquiso.Quanto ao ator Irandhir Santos de quem também fiquei fã, estou tentando assistir aos seus filmes. É uma pena que quase nunca chegam em minha cidade. Aqui o pessoal é muito ligado no cine pipoca e ainda prevalece o preconceito negativo com filmes brasileiros. Adoro o cinema pernambucano. Temas reais, produções fantásticas com muita criatividade.
        Eu acho que estamos no caminho certo das boas produções em TV e cinema.
        Abraços.

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Publicado às 4 de agosto de 2014 por em Memórias, Novela, TV e marcado , , .
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