Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

BABÁ DE GATO

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Andei meio distante do blog, mas a culpa não é exatamente minha. Aceitei uma louca missão e estava tentando dar conta dela, para isso achei melhor abrir mão um pouco de postar textos. Quer dizer, não foi uma decisão tão deliberadamente minha assim, mas de alguém que estava acima e em cima de mim o tempo todo: o Chico.

Chico é o gato de um dos meus amigos mais queridos, mas a nossa relação não era íntima. Eu ia visitá-lo e ele estava por acolá, passeando sobre as estantes ou poltronas e sempre nos fuzilando com seu olhar julgador que a nada perdoava. Não tenho contato com animais desde meu último bichinho de estimação, quando eu tinha uns dez anos, sem contar que eu nunca tive um gato. Já tive cachorros, coelho, tartaruga, mas nunca um gato. Sou desconfiado deles. Um bicho cheio de empáfia, com cara de falso e que não te dá bola quando você o chama. É praticamente o oposto da minha definição de pet.

A situação piorou quando cheguei em Brasília e percebi que muita gente cria gato. Achando que ia me despertar interesse, eram todos unânimes em dizer: “você tem o gato, mas ele acha que é seu dono, que você vive para servi-lo. Diferente do cachorro, que ama seu dono porque ele o alimenta e dá carinho, o gato enxerga o humano não como quem lhe dá, mas como quem lhe serve”. Pronto, para que diabos eu ia querer me aproximar de um ser assim? Não, obrigado.

Mas o que seria da vida e das novelas se os tabus que criamos para nós mesmos não fossem quebrados?

Chico ficou velho, depressivo e carente e uma circunstância me levou a fazer este favor ao meu amigo passando dez dias na companhia dele. As recomendações eram várias – dar o remédio, quando ele me pedisse dar sua comida e assisti-lo comer, colocar água na fonte -, mas as principais eram conversar com ele, dar carinho e dormirmos juntos. Eu nunca gostei nem de deixar cachorro subir na cama, indirá (sic) dormir com o bicho. Mas trato é trato.

Chico Tirando uma selfie nossa (dele).

Chico tirando uma selfie nossa (dele).

A tensão dos primeiros dias era grande. Medo dele não gostar de mim, de não ir com a minha cara. Dizem que gatos são os guardiões dos portais que ligam o mundo material e o espiritual, por isso seriam capazes de ver a energia das pessoas. Ser rejeitado por alguém com tal capacidade seria muito doloroso. Como eu tive que me mudar para a casa do bicho, o plano era simples. Ficaria no sofá, com o computador nas pernas e a TV ligada o máximo de tempo possível, assim eu não o estressaria muito. Dito e feito. Acontece que a cada vez que eu me abancava muito confortavelmente no meu local determinado, de repente ali estava ele pulando em cima de mim. Eu ficava estático, imóvel, esperando o que ele ia fazer. Vinha, me cheirava, afofava minha barriga (tadinho, não tenho nada para ele afofar) e ali deitava. Pronto. Ficava por horas a fio aproveitando o calor humano que eu emanava.

Era gostoso ter um bichinho que te procura e instintivamente minha mão começou a buscar seu pelo para fazer carinho. Ele deitava sobre mim e eu o alisava. Barreiras começaram a cair ente nós (inclusive no meu interior) e sempre que eu saía ou chegava, o cumprimentava. Ele miava para mim e ficava me olhando, esperando ir atrás dele até a tigela da comida, querendo que eu a enchesse e o assistisse. Depois, miava de frente à porta da casa. Era hora do passeio no hall, com todo o cuidado para que nenhum elevador estivesse aberto ou que o cachorro do apartamento da frente estivesse solto. A carinha da filha da vizinha, uma menina de uns 5 anos, ao vê-lo pela primeira vez já teria valido qualquer trabalho que o Chico poderia ter dado.

Chico brigava comigo quando demorava a chegar e eu tinha pena dele quando tentava deitar sobre minha barriga por conta da falta de tecido adiposo, mas ele não parecia se incomodar com isso. Impressionante mesmo foi a relação que ele criou com meu coberto e como nós realmente conseguimos dormir juntos. Eu não via como, mas de manhã ele estava ali, entre as minhas pernas, e com a cabeça sobre a minha panturrilha. Fui percebendo que ele foi deixando de ser “um gato” e passou a ser minha companhia, que estávamos nos entendendo bem.

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Altas noites vendo TV.

A despedida foi triste. Ele vem fazendo falta e não sei se tem sentido de mim. Há uns dias atrás, ele passou muito mal e chegou a precisar de uma transfusão. A imunidade está super baixa e até parada cardíaca teve. Coisas da idade e da sua delicada saúde, além da saúde psicológica. Meu maior medo ao estar com ele era que ele morresse enquanto eu dormia. O pavor de acordar e encontrá-lo sem vida me fazia dar uma checada várias vezes durante a noite.

Hoje eu entendo totalmente que tem bichos de estimação. Não dá para negar que é uma relação verdadeira, mas não tão fiel e desinteressada como muita gente brada. Eles te buscam, te fazem carinho e esperam algo em troca sim, igual a qualquer outra pessoa. Até me perguntaram se depois da experiência eu agora vou arrumar um bichinho para mim. Acho melhor não. Fica como quando eu fui em um carnaval fora de época: foi ótimo, mas não preciso ir de novo. Aproveitando a analogia anterior, a lição desse acontecimento se resume muito bem nas palavras do Chiclete com Banana.

VALEU

FOI BOM

ADEUS!

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Cansei de ser gato. Agora tenho um blog sobre novelas.

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2 comentários em “BABÁ DE GATO

  1. Rafael Nova
    16 de agosto de 2014

    Eu achei linda tua estadia com o Chico. Eu sempre amei gatos, nunca pensei neles como bichos interesseiros. Meu mesmo eu tive apenas um único que foi o siamês Fud. E os demais eu cuidei junto… O que gosto neles é a independência, e a ligação que eles estabelecem com o dono. Eles se afinizam com uma pessoa, e “escolhem” estar com ela… E sempre voltam pra ela em busca do carinho ou da companhia. Sou suspeito pra falar! (:

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ben Oliveira
    18 de agosto de 2014

    Seu texto ficou ótimo, Ítalo! Apesar de achar que essa história com o Chico vai te render mais histórias.
    Deixo aqui o meu voto de melhoras para o gato. Acredito que você deve ter criado uma afinidade grande com o bichano, sem falar que é terrível ver algum bichinho de estimação sofrendo e não poder fazer muito para ajudar.
    Abraços! E continue escrevendo.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 15 de agosto de 2014 por em Memórias e marcado , , , .
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