Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

BOOGIE OOGIE

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No ar há três semanas, a novela das seis, BOOGIE OOGIE, é ambientada no dançante ano de 1978, período da febre das discotecas.  Apesar de a maioria das pessoas, mesmo as que não eram ainda nascidas, terem a memória dessa como uma época altamente animada, as cenas da novela dão a sensação de ter sido um período muito tenso (e não porque o Brasil vivia um dos períodos mais negros da ditadura militar).

Até agora, os temas a serem tratados na novela de Rui Vilhena, com direção do sempre eficiente Ricardo Waddington, têm se mostrado mais interessantes do que as tramas em si. Falando por enquanto do enredo, muita coisa aconteceu em muito pouco tempo – em especial, no primeiro capítulo -, mas tudo bem, é típico das novas novelas fazerem um primeiro capítulo cheio de grandes acontecimentos para atrair de cara o telespectador. O problema é que os grandes acontecimentos vêm acompanhados de grandes razões. Rafael (Marco Pigossi) acaba de terminar seu namoro e está andando triste pela rua, enquanto todo o resto do país está vidrado no jogo da seleção, bate de frente com Sandra (Ísis Valverde) vestida de noiva no meio da rua desesperada porque derramaram café no seu vestido que será usado no dia seguinte e, também devido ao jogo, não encontra nenhuma mercearia aberta. Ele a ajuda a tirar a mancha, sem uma longa conversa e diz:

– Casa comigo. Eu te amo.

Ela, um pouco mais consciente, responde Você não reparou? Eu estou vestida de noiva, eu caso amanhã. Mas isso não o impediu de pedir que ela não case com o outro, mas com ele, que acabou de conhecê-la (Tu jura, Pigossi?). Ok, essa é uma paixão avassaladora e ficar com raiva desse amor só vai te dar dois trabalhos: o de fazer bico e o de consertar a cara depois. Para piorar, os dois se encontram no dia seguinte novamente, na infeliz circunstancia de que Rafael agora resolveu pedir sua antiga namorada Vitória (Bianca Bin) não apenas para voltar, mas em casamento, jogando panfletos de papel de um avião pilotado por ele. O avião acaba caindo perto do táxi do noivo de Sandra que morre ao tentar salvá-lo. Este corre para a igreja para dar a notícia pessoalmente para a noiva e, aproveitando que já estava ali mesmo, pede de novo a moça em casamento!

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Além da estória do triângulo amoroso, os outros personagens também não demonstram muita clareza nas razões que os levam a agir desta ou daquela maneira, deixando todo mundo com aspecto de criança birrenta, dessas que fazem o que querem por manha e que não precisam de um motivo plausível para, por exemplo, levar uma mulher ensandecida a uma festa de noivado que sua irmã é a organizadora e que você sabe que ela quer expor todo o seu sofrimento fruto de uma dor tremenda por ter perdido o noivo no caminho do casamento. Mas, né, a gente ajuda os amigos…

Já os temas mais interessantes são os de três personagens específicos. Primeiro, o negro formado em Direito e que sonha em ser diplomata – já ouviram falar na história do Joaquim Barbosa que foi reprovado na entrevista do Itamaraty? Ele é a pessoa mais educada, doce e inteligente da novela, mas ninguém lhe dá muito crédito porque é negro. A própria personagem da Alessandra Negrini foi categórica:

– Ele quer ser diplomata? Mais fácil um negro ser presidente dos Estados Unidos.

O segundo é a situação da personagem da Betty Faria, Madalena. Ela interpreta uma senhora rica que viveu a vida toda conforme as regras e, agora que é viúva, quer fazer tudo o que tem vontade e não podia. Ela está aprendendo a dirigir, compra roupas super transadas na loja da neta e ensaia os melhores passos para arrasar na pista da discoteca, além de dar palpites no set list do discotecário (atenção para essa palavra porque há grandes chances de ela virar mania nos flyers).

Por último, a menininha que anda roubando a cena. Cláudia (Giovanna Rispoli) tem uns 10 anos de idade, é a irmã mais nova da Sandra e já conquistou o posto de melhor vilã da novela. Ela é má, assim, de graça. Essa é a ironia. Uma estória em que todo mundo age loucamente sem um motivo claro, a melhor personagem é justamente aquela que pode se dar ao luxo de ser birrenta sem ninguém estranhar, pois é uma criança. Ela encarna toda a crueldade e egoísmo infantis de uma filha caçula que sabe que é a menina dos olhos do pai militar. Capaz de deixar a irmã que ficou viúva dormindo no sofá da sala porque já jogou fora o colchão da cama do quarto que dividiam e de manipular com inteligência o irmão adolescente e super ingênuo. Essa garota promete estremecer a trama das 6.

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Um dos maiores divertimentos de quem assiste a novela ao mesmo tempo que está conectado ao twitter é ficar questionando se isso ou aquilo existia na época. Se usavam  o cabelo de tal personagem, se já existia determinado objeto ou até mesmo se tal música da trilha sonora já havia sido composta em 1978. Honestamente, acho isso sem propósito, afinal de contas quem quer ver a imagem fiel da reconstituição de uma época não deve procurar uma novela, mas um museu. Uma novela é um produto criado para dar certo e para isso é imprescindível que haja o mínimo de identificação do telespectador.

Em relação ao figurino, cabelo e maquiagem da época, eu vou tratar melhor no meu próximo post sobre o livro da figurinista Marília Carneiro que acabei de ler, mas desde já posso dizer que o objetivo de um figurino, mais do que ser fiel à época, é dizer alguma coisa a quem assiste. Se na época a moda eram mulheres de cabelos cacheados isso não quer dizer que não haviam outras de cabelo liso e como hoje a moda é o cabelo liso, este aspecto ganha destaque. No máximo você coloca elementos para que se identifique em que época está se passando a estória, entretanto não necessariamente elementos verdadeiros, mas que te remetam àquilo. Se estiver duvidando, faça um teste: ligue no Canal Viva à meia noite que estará passando a novela Dancin Days, feita exatamente no ano de 1978 e me diga se não sente um estranhamento. Aquela produção original, na época, lançava mão do que estava em voga, sendo o mais fiel possível e, mesmo assim, para nós, esquisito.

E com relação às músicas, sinto muito, mas se a trilha sonora fosse minha eu colocaria músicas discos feitas até hoje porque, de novo, o objetivo é criar a sensação de se estar em uma determinada época e não ensinar a ninguém que músicas existiam e quais não existiam naquele ano. Se assim fosse, então seria proibido que alguém compusesse uma música para um filme que se passasse no século XIX, pois essa música não existia na época.

Eu tenho uma teoria de porque há tantos puristas que gastam seu tempo investigando essas coisas. Tem uma frase de um filme que diz “Não há nada mais remoto do que o passado mais recente”. A compreensão dos fatos históricos leva tempo e só os acontecimentos posteriores a ele nos dirão sua verdade, sem contar que seus erros ainda estão sensíveis em nós, por isso evitamos tratar sobre eles. Ficar buscando os erros numa produção de época pode ser uma forma de demonstrar que você está ligado com esse passado, mas não necessariamente ligado da melhor forma. Parece que está lidando com ele, mas muitas vezes só está sendo chato mesmo.

Depois de uma produção como MEU PEDACINHO DE CHÃO com tantos elementos novos e por ser a primeira novela desse escritor, por enquanto Boogie Oogie não mostrou tantas novidades. A expectativa é que seja legal, morna e coloque as músicas daquele tempo de volta às pistas. Já eu deixarei meu sofá afastado mais pra lá até o capítulo final, porque né, quem resiste a uma disco?

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Um comentário em “BOOGIE OOGIE

  1. Flávia
    21 de agosto de 2014

    Acho que você está vendo cenas que não passaram na novela. Quando o Rafael conhece a Sandra, fala para a moça não casar, mas não pede que a mesma se case com ele (Rafael) e muito menos que a ama. Na igreja, ele não pede a moça em casamento

    Curtir

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Publicado às 21 de agosto de 2014 por em História, Novela, TV e marcado , , .
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