Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

NO CAMARIM DAS OITO

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De um simples almoço de dia dos pais, de um grupo sem pais, podem sair coisas inesperadas. Eu, por exemplo, saí de lá com um dos melhores presentes da minha vida: o livro NO CAMARIM DAS OITO, de Marília Carneiro, figurinista há mais de quarenta anos da Rede Globo.

Com uma linda edição, muito bem cuidada, fotos maravilhosas, Marília vai conduzindo o leitor desde uma pequena introdução sobre o início da sua vida, a perda da fortuna da família, até ela parar nos corredores da Globo por um pedido de Dina Sfatao diretor Daniel Filho, para criar o figurino da sua personagem em Os ossos do barão (1973). Não existia exatamente uma ideia de figurinista como profissão na época. Esta era uma função feita, principalmente, por carnavalescos, isso mesmo!, eles que desenhavam as roupas que cada personagem iria usar e as costureiras executavam. Com a chegada de Marília, que fora dona de butique e frequentava a alta sociedade carioca, ela era mal vista pelos demais por usar um método que muito os desagradava e que fazia eles alegarem que ela estaria trapaceando: comprar roupas, em lojas, já prontas.

O que percebemos pelo relato é que não precisa necessariamente inventar do nada uma roupa para um personagem, mas sim pinçar do que está na rua elementos que, numa nova conjuntura, vão dizer quem ele é. Ao mesmo tempo que este novo método agilizou o trabalho a ser feito, lançou luz sobre algo que ninguém havia se atentado ainda: tirar das lojas as tendências e lançar moda. Marília, em sua modéstia, afirma que sozinha não é capaz de criar uma moda que vai ganhar as ruas, dependendo também do sucesso da novela, da interpretação do ator e do carisma do personagem. Ela cita como um dos seus maiores orgulhos o figurino de O Clone, em que praticamente todo o figurino de Jade foi parar nos guarda-roupas das brasileiras. Há uma fala de Sônia Braga relembrando uma festa, na época da novela Dancin Days, em que todas as mulheres estavam vestidas de Júlia Matos – ambas as novelas com figurinos assinados por Marília.

No livro, a autora faz uma coisa maravilhosa que é explicar a diferença entre ser figurinista e estilista, que eu transcrevo logo abaixo:

Enquanto o estilismo se preocupa com os desfiles e com o show-business, os figurinistas se ocupam de homens e mulheres de carne e osso, bem diferentes dos seres idealizados da moda. Um estilista não precisa saber como disfarçar, por exemplo, uma indesejável barriguinha.

(…)

O estilismo tem obrigação de criar tendências. Se isso não acontecer, é sinal de que ele e o mercado da moda não estão na melhor fase do seu namoro. E se não fizerem as pazes rapidinho, adeus, retorno financeiro. Já o figurinista, quando vê suas ideias virarem mania, sabe que os louros da criatividade também se devem aos bons ventos do Ibope.

(…)

Ser figurinista é de vez em quando enjoar de moda, ir a Paris e se recusar a ver qualquer desfile – ou optar só pelos japoneses, porque eles nunca vêm ao Brasil. É ir a um concerto em Nova York e prestar mais atenção na plateia do que na música.

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O livro nos traz situações que um figurinista tem que resolver que são inimagináveis para nós, reles espectadores. Por exemplo, uma roupa nunca vai diretamente da loja ou da costureira para o corpo do artista, sem antes passar por pelo menos uma batida de máquina para retirar o viço do novo. Ao criar o figurino de Tenda dos Milagres, foi preciso lidar com o problema de roupas brancas em pessoas negras, que eram quase a totalidade do elenco e praticamente todo o figurino nessa cor, pois elas refletiam diretamente a luz, o que deixava impossível de ver um rosto nesse tom de pele. A solução foi dar vários banhos de chá, o que quebraria a alvura e diminuiria o reflexo dos refletores. Para se criar um figurino era necessário, inclusive, pensar em passar óleo Johnson nas roupas da série Lampião e Maria Bonita para dar a sensação de roupas ensebadas, afinal, no meio da seca do sertão, eles não tomavam muito banho mesmo.

Certa vez deram a ela a missão de fazer o figurino de uma granfina carioca, que ela achou que seria a coisa mais fácil do mundo, pois precisaria apenas se inspirar nas suas amigas. Ao apresentar o material, o diretor ficou extremamente decepcionado, porque as roupas não passavam nada de riqueza e poder, como era de se esperar. Ela quis argumentar que uma granfina de verdade não se vestia exageradamente e que elas são até muito discretas, daí ele explicou que eles estavam fazendo televisão e que as pessoas precisavam acreditar que aquela mulher era rica. Marília percebeu que nenhuma mulher rica seria vista como tal se aparecesse numa telenovela e apenas colocou mais alguns elementos como um colar de ouro a mais, um pouco mais de brilho na bolsa e nos cintos. Ela viu que dramaturgia não se faz com verdade, mas com a sensação da verdade e era esse o seu trabalho. Uma verdade que estaria no imaginário coletivo.

Uma outra situação muito curiosa é quanto a figurinos de época, normalmente muito caros para serem produzidos apenas para uma pequena série ou um filme. A solução é alugá-las de lojas da Inglaterra que as envia de navio, contudo muitas dessas roupas são originais, feitas no século XVII ou XVIII, e, para a sua conservação, NÃO PODEM SER LAVADAS NUNCA. Marília brinca ao pedir que imaginemos uns dois ou três séculos de suor de pessoas acumulados. As roupas são um primor, mas várias atrizes já tiveram problemas sérios de alergia após usar essas peças tão raras.

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Além das situações extraordinárias também há o cotidiano, que já não é fácil. Quem vê na tela um restaurante japonês em que todas as atendentes estão vestidas de gueixa não sabe que ela é quem tem que dar conta de vesti-las e ainda de decidir se serão gueixas inspiradas num clipe da Madonna dos anos 90, no último desfile do Versace ou em algum clássico do Kurosawa, porque seu trabalho é todo feito por referências e pouco está ali por acaso.

Ela relembra seus grandes sucessos como o figurino de Rabo de saia, novela sobre um homem com três esposas e que o figurino foi a solução para o telespectador não se confundir, pois ele usava um tipo de roupa para cada uma. A inesquecível Dancin Days que determinou a moda do final dos anos 1970 e que teve o famoso conjuntinho de Sônia Braga no seu triunfal retorno ao Brasil revisitado na atual novela das seis, Boogie Oogie. Também fez a primeira versão de O Rebu, Gabriela, O dono do mundo, A casa das sete mulheres, a nova versão de Ti ti ti, além de filmes e peças de teatro. Já sua experiência junto com o pessoal da TV Pirata é uma das melhores partes, pois ela confessa ter adorado poder usar todo o seu humor nonsense para, por exemplo, vestir a Cláudia Raia como Tonhão. Quem podia imaginar que em um programa de humor havia também toda uma ideia sobre a escolha do figurino? Com dor e coragem, Marília também cita alguns dos seus erros, mas essa parte deixo para quem ler o livro.

Ao longo de toda a obra, a figurinista faz lindas homenagens aos verdadeiros profissionais que seguram as pontas e realmente faz a coisa ficar linda na tela: costureiras, camareiras e lavadeiras. Logo na abertura, Cissa Guimarães a encontra nos corredores e faz um muxoxo porque quer um vestido novo para sua personagem que vai sair com o novo namorado. Ela então pede para Rosa, a camareira, que agilize o vestido que havia preparado para a triz. Rosa, enquanto executa sua função, diz, numa sabedoria secular.

Rosa: Ela tem que entender que a personagem dela não tá num momento de comprar roupa nova. Então o filho dela tá lá todo drogado e sofrendo e ela pensando em vestidinho novo?

Marília olha para Rosa e sorri.

Marília: Rosa, ninguém aqui entende melhor de dramaturgia do que você.

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Marília Amora me fez descobrir Marília Carneiro e esta me fez descobrir os figurinos. Nunca pensei que existisse tanto a se pensar sobre escolher a roupa que um personagem fosse usar, tanto a se dizer por meio dele. Apavora pensar que o figurino deve dizer quem é o personagem e pelo que ele está passando, contudo não pode ser além disto: um figurino. Lembrando o filme do Tom Ford –Direito de amar (A single man) – dá para observar que um figurino pode ser deslumbrante a ponto de sobrepujar interpretações grandiosas como as de alguns atores. O ideal que se espera dele é que seja invisível, pois quanto menos se presta atenção nele, mais eficiente ele está sendo, pois assim está inteiramente casado com a interpretação, iluminação, cenário, etc.

Agora, além de procurar saber de quem é a novela e quem é seu diretor, vou passar a atentar para o nome de quem assina o figurino.

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Um comentário em “NO CAMARIM DAS OITO

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Publicado às 4 de setembro de 2014 por em Literatura, Livros, Memórias, Novela, TV e marcado , , , .
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