Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

ME ENCONTRANDO COM O PIAUIÊS

piauiês

Ao sair do Piauí, me vi em contato com várias línguas. Já encontrei gente que falava em inglês, francês, espanhol, árabe, alemão, holandês e até português. Sim, português dentre as línguas estranhas a mim. Em Brasília há pessoas do Brasil todo e fácil se vê alguém que está falando algo que você não tem a mínima ideia do que seja.

Há os nordestinos da zona da mata, os mineiros, os gaúchos, uns cariocas e paulistas, além de todo o centro e o norte do país. No entanto, se eu coloco estas outras “línguas” em perspectiva o que na verdade eu quero dizer é que me foi percebido a minha própria, o que eu posso chamar de piauiês. Ela, de um falar ritmado, quase cantando, com expressões de um português castiço e algumas pronúncias fortemente influenciadas ainda pela dominação espanhola sobre Portugal, gera um conjunto de signos e significados próprios e que demanda uma pequena introdução antes.

Quando aqui cheguei, tentaram me avisar para tomar cuidado e não falar piauiês demais, virando motivo de chacota no trabalho – traduzindo: para o povo não ficar mangando de mim. Não resisti muito tempo. Logo gerei polêmica no elevador lotado ao pedir que o ascensorista apertasse o “biloto” para a porta não fechar e quase matei um chefe mineiro de susto ao dizer que faria uma festa “de papoco”. Entendi a partir disso que o que era preciso para que não ficassem frescando com a minha cara era saber muito bem de onde eu vinha e a origem, sempre que possível, das expressões que usava, passando de cultura exótica a interessante o suficiente para ser apresentado no Globo Repórter.

Um dos casos mais curiosos se deu na casa de um casal de argentinos. Havia uma festa e eu estava prestes a ir embora. Um conhecido me pediu que eu desse carona a sua namorada até um lugar que ela pudesse pegar um táxi e, querendo ser muito educado, insisti em deixá-la em casa. Ficamos naquela discussão para ver quem seria mais gentil – se eu em deixar a moça em casa ou eles em não me dar esse trabalho – e resolvi encerrar o assunto dizendo:

– Eu vou levá-la para casa porque não vou rebolar a menina num ponto de táxi.

O namorado ficou extremamente ofendido e começou a gritar que a namorada dele não fica rebolando em ponto de táxi coisa nenhuma. Acalmados os ânimos eu expliquei o que significava “rebolar a pessoa ou coisa em algum lugar”. Ele só se tranquilizou quando a dona da casa revelou que na Argentina também se usa o verbo “rebolar”, no caso revolear, no mesmo sentido que eu queria dizer. A curiosidade de saber o porquê dessa coincidência se instalou na minha cabeça e terminamos a noite concluindo que devia ser por alguma colonização porteña no Piauí que ainda não havia sido descoberta pelos pesquisadores, pois ainda encontramos outras proximidades.

Mais do que descobri sobre as outras línguas faladas no Brasil, muito me impressionou o que eu descobri sobre a minha própria e isso vai além da questão vocabular.

Engraçado notar como o piauiês algumas vezes é uma língua irônica. Nós subvertemos as regras quando usamos o aumentativo e o diminutivo, empregando os respectivos sufixos. Para entender do que eu estou falando, pense no seguinte exemplo: um país resolve invadir a China e dominá-la. A China é imensa, mas, para o piauiense, o invasor entrou e ocupou o país todinho, não todo.

Pode observar: no Piauí, o diminutivo ocupa o espaço do aumentativo quando o sentido é de totalidade. Os advérbios de intensidade, ao invés de acompanharem as palavras terminando com “ão”, antecedem-nas terminando em “inho/a” numa construção semântica bastante piauiense. Há uma teoria que o uso do diminutivo e do aumentativo em uma língua indica o grau de passionalidade de um povo, sua cordialidade na acepção original da palavra que começa com cor, coração em latim.

Na música diz que “é como se ter ido fosse necessário para voltar” e parece verdade. Ao sair, vi coisas diferentes e fiz movimentos estranhos com a minha língua para poder me comunicar, mas sempre que alguém me diz:

– Nossa, você é piauiense? Nem parece – sem pena nenhuma eu respondo:

– Bom, ou você não me conhece o suficiente, ou não conhece o Piauí.

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Um comentário em “ME ENCONTRANDO COM O PIAUIÊS

  1. Leo
    3 de fevereiro de 2015

    já vivi um negócio bem parecidin com esse aí, de rebolar os outros nos cantos..
    Outra coisa que a Fernanda ainda se impressiona é como a gente muda os gêneros das coisas..

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado às 8 de setembro de 2014 por em Humor, Literatura, Memórias e marcado , , , .
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