Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

ELEIÇÕES 2014: O QUE TEVE (na fila da minha seção)

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Para mim, o domingo ia ser como tantos outros do tempo que eu morava em Teresina: ia lá, votava e ia fazer todas as outras mil visitas que eu tinha marcado. Não foi assim.

Levei minha família para votar na escola onde ficava a seção deles às 11 da manhã e depois iria para a minha, que ficava perto. As filas estavam enormes e no Sol, então decidimos fazer nossas coisas e depois voltaríamos para votar, quando estivesse mais vazio no fim do dia.

Às 15 h, deixei minha irmã, de novo, na escola onde votaria e me mandei para a minha. O transito para chegar lá já estava caótico, mas a esperança permanecia no meu coração. Um monte de gente na minha escola, mas eu creditava que a minha seção poderia ser a única a não ter gente. Quanto mais perto eu chegava, mais ficava aperreado, mas eu rezava para que São João Batista não me abandonasse nesta hora dolorosa e me conduzisse ao oásis sem fila. Fui parar no final da campeã mundial das filas às 15:30.

Cheguei na fila.

Cheguei na fila.

Minha vida poderia ter sido muito triste neste momento, se não fossem as maravilhas tecnológicas do celular e da rede 3G que não me deixaram ficar sozinho, trocando fotos e bobagens com meus amigos, porém isso não durou muito tempo. A vida é sempre maior do que tudo, não é? Em pouco tempo, aquelas pessoas que estavam ao meu redor se tornaram muito mais interessantes do que aquelas trocas de mensagens e acabei me tornando um correspondente internacional para os grupos de Whatts App do que eu vi e vivi nas DUAS HORAS DE FILA  que enfrentei até chegar à urna.

De primeiro, minha fila não estava tão legal, mas a do lado estava. Uma garota que já havia votado e acompanhava uma amiga desabafava:

– Tinha um gatinho atrás de mim na fila. Aí eu pensei logo: “me dei bem”. Tava pensando como ia puxar assunto, mas ele começou a dizer que ia votar no Aécio para tirar essa corja do PT, que só tem corrupto. Nada contra quem vota no Aécio, mulher, mas eu tenho preconceito com quem trata o PT como corja. No dia de hoje eu posso ter preconceito, né?

– Ah, mulher, mas não precisa casar com ele.

– Pois é, amanhã eu chamo ele pra sair, mas hoje não.

Eu já estava vendo que aquilo ia render, mas justo nessa hora a fila começou a andar e eu perdi o fio da estória. Então entrou em cena uma das personagens mais emblemáticas da minha fila. Ela era uma senhora de mais de cinquenta anos, acompanhada do marido. Pareciam duas pessoas que tinha uma boa condição financeira e que haviam estudado bastante na vida, o marido tinha até cara de professor/poeta. Foi dessa mulher que eu ouvi um relato muito interessante – aliás ouvi não, roubei, pois ela não contou para mim, mas para o rapaz que estava atrás de mim – que reproduzo abaixo:

– Uma amiga me disse que na eleição passada para Vereador, candidato X não conseguiu nenhum voto. Nem um, teve zero voto. E ele foi lá, na Justiça Eleitoral, questionar porque ele tinha a certeza de ter tido pelo menos um: o dele. Ele entrou com processo e foi uma confusão, mas o coitado não teve nem o voto da mulher e nem da mãe. Quando chegou em casa, a primeira coisa que ele fez foi falar com a mulher. “Como é que nem tu vota em mim?” Aí ela disse: “Ora mais rapaz, se nem quem não te conhece votou em tu, imagina eu que te conheço”.

E, claro, não podia faltar, muita gente falando que tá quente e reclamando do calor. Juro que eu queria ter uma máquina do tempo só para encontrar com o Conselheiro Saraiva. Na primeira vez que ele dissesse “tá quente, né?” eu ia pegar ele pelos colarinhos e avisar logo que é sempre assim, vai ser assim e só pode é piorar, porque eita coisa difícil é esse povo que só sabe reclamar de calor, como se já tivesse feito frio alguma vez na vida por aqui.

Sonhando com uma máquina do tempo.

Sonhando com uma máquina do tempo.

Enquanto eu me imaginava com minha máquina do tempo, bem sentadinho no batente da escola, ainda na metade da fila, a tal senhora começou então um discurso para tirar “isso tudo que tá aí”:

– Olha, se fosse na época que analfabeto não votava, esses corruptos não seriam eleitos, mas para eles é assim: quanto mais analfabeto votando, mais eles são eleitos. Porque tu sabe quem é o chefe dessa quadrilha, não sabe?

Pronto. Neste momento a questão virou pessoal e eu pensei em um monte de coisas para dizer para ela sobre democracia, sufrágio universal, a conquista do voto pelos analfabetos e as eleições antes desse direito, afinal de contas como lidar? Como matar? Mas nada seria melhor do que simplesmente mostrar a foto abaixo:

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Depois dessa, resolvi me concentrar nas pessoas na minha frente. O casal imediatamente na frente não dava, porque era só agarramento e beijo, afinal não há nada mais romântico do que estar uma hora e meia na fila esperando para votar em uma escola pública na capital do Piauí. A vista para a obra da quadra poliesportiva era linda, um convite ao amor.

Esses dois logo perderam meu interesse, mas a loira que estava na frente deles não. Ela era uma mulher linda, bem vestida com um vestido verde, com o cabelo muito bonito e quando tirou o óculos escuro de marca, um par de olhos azuis que se ela não tivesse nascido com eles, eu diria que ela tinha comprado, porque combinavam perfeitamente com o conjunto e pelo bom gosto que dava para perceber. Ela teria escolhido exatamente aquele modelo. A distinta estava revoltada:

– Mulher, é um absurdo. Olha, é por isso que eu quero tirar esse povo. Não, a coisa está tão absurda que uma conhecida minha tem um bar e um dia desses uma cliente quis pagar a conta da noitada com o Cartão do Bolsa Família. Pode um negócio desses? Ela ficou chateada, mas teve que aceitar. Ela ia ficar no prejuízo? Imagina? – e emendou a fala dizendo que era um absurdo o preço das mensalidades das escolas.

17h. Neste instante, o fiscal saiu distribuindo as senhas para as pessoas que estavam na fila e ainda eram muitas. Descobri por fonte fiel – ouvi ele fofocando para um conhecido – que havia ainda 95 pessoas para votar. Uma lástima.

A senhorinha de trás continuou conversando besta nas minhas costas e uma hora perguntou:

– Eu queria era um jeito de saber quantas pessoas ainda estão na minha frente nessa fila. Será que tem como?

Não aguentei e respondi, como quem fala com um analfabeto:

– Tem. É só você ver qual o número da sua senha – e dei um sorrisinho irônico.

Ela me sorriu agradecendo como se tivesse dito uma bobagem. Eu adoro quando consigo dar uma cortada em alguém e ela acha que eu estou é ajudando.

– Tem 20 pessoas na minha frente. Cada um deve levar 2 minutos para votar, então agora vai ser rapidinho.

– Se fosse só 2 minutos para cada um votar, a gente já estaria em casa a essa hora – novo sorrisinho e nova cara dela de agradecimento por eu ter esclarecido mais uma bobagem dela.

Ela já estava ficando com vontade de ser minha amiga.

– Do jeito que vai essa apuração o resultado só vai sair meia noite, porque o povo termina de votar e daqui que apure…

– A apuração é o mais rápido. É só computar os votos e é praticamente na hora que sai o resultado. O que demora é votar – terceiro sorriso esperando aparecer um You Win daqueles vídeo games de luta.

Não dá para bater na cara, mas a gente dá uma surra que educa, pois ela estava me adorando.

Bom, duas horas depois, finalmente entrei para votar. O presidenter da seção estava muito sereno e sério, como é de esperar de alguém que ocupa esta função, e uma camisa listrada e manchada de comida aberta até a barriga. No peito, com muito orgulho, ele sustentava um colar de prata com a bandeira do Botafogo.

– Boa sorte – me disse, quando autorizou que eu me dirigisse à urna.

Achei uma boa saudação. Me afeiçoei a ele.

Essas duas horas em pé, no Sol, sem ter como beber água foram muitos ruins, mas acho que essa experiência me rendeu mais do que apenas este post. Me mostrou um pouco da cara da democracia.

E hoje me despeço com as palavras do Presidente da minha seção.

BOA SORTE PARA VOCÊS.

fimurna

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5 comentários em “ELEIÇÕES 2014: O QUE TEVE (na fila da minha seção)

  1. Wilka
    5 de outubro de 2014

    Adorei

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ítalo Damasceno
    5 de outubro de 2014

    Minha experiencia hj na votação foi bem pior….kkkkk….Espero eu que seja compreendido pelo TRE que a tal mudança biométrica não foi legal…pelo menos na zona leste, em Teresina-Pi.

    Curtir

  3. Bastian
    27 de outubro de 2014

    Mew, to adorando seu jeito de escrever. Fiquei com dó de ti, poxa, aguentar calor e senhorinha reaça ninguém merece, né? Na minha seção só tinha eu e meu guarda-chuva. E o pessoal do meu bairro que nunca pareceu ir muito com minha cara.
    Adorei teu blog, guri, beijundas!

    Curtido por 1 pessoa

    • Ítalo Damasceno
      27 de outubro de 2014

      Oi Bastian, feliz em saber que você curtiu meu jeito de escrever.

      Vi que tu também tem um blog, assim que eu estiver mais tranquilo, vou dar uma olhada com atenção.

      Fique a vontade também para curtir a fanpage do blog no facebook. Lá eu sempre aviso quando tem post novo e outros trabalhos meus.

      Abraço

      Curtir

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Publicado às 5 de outubro de 2014 por em Humor, Memórias e marcado , .
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