Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

AINDA VALE TUDO?

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Há pouco tempo realizei um desejo de alguns anos: o DVD da novela VALE TUDO. Na época em que ela foi ao ar, eu não gostava. Era 1988 e eu já havia curtido a abertura de SASSARICANDO, mas aquela novela cheia de temas adultos, com gente só falando em dinheiro e inflação, não tinha a menos graça para a minha pessoa com 5 anos de idade – no ano seguinte viria a minha obra mais amada, TIETA, o que me faria descobrir que eu gostava mesmo era de estórias de realismo fantástico no interior do Brasil.

Quando comecei a estudar sobre telenovelas, não havia como negar, VALE TUDO era sempre citada como uma estória primorosa, retrato de uma época e pela aparição de uma personagem que povoou o imaginário dos brasileiros e que não poupava da sua língua nem a mais alta casta do país, ODETE ROITMAN. Reassistindo no VIVA em 2011, já adulto e com a visão do distanciamento de mais 20 anos, pude finalmente aproveitar tudo o que ali havia de bom. No primeiro capítulo, um simples diálogo entre as protagonistas antagônicas Maria de Fátima e sua mãe Raquel, além do avô da família, sobre por que se deve ser honesto no Brasil? é de cair o queixo. A neta lhe pede para explicar “de que vale ser honesto em um país em que todo mundo é corrupto, sem essa de conceitos abstratos de princípio, dignidade e honra, mas com coisas práticas”. Munido da consciência tranquila e a cabeça leve ao deitá-la no travesseiro para dormir, o velho fiscal da alfândega aguentou com dignidade todos os ataques da moça lhe jogando na cara “apartamentos de 200m­­­­­­2 em Ipanema” de amigos seus que livravam a entrada de contrabando em troca de suborno. (Primeiro capítulo aqui, ver a partir de 20:15)

Revendo a novela de Gilberto Braga, observei que no final dos anos 1980 e início dos 1990, este era o principal tema das melhores novelas do período. Direta ou indiretamente, SASSARICANDO, O SALVADOR DA PÁTRIA, QUE REI SOU EU?, DEUS NOS ACUDA, para citar as principais, permeavam sempre a questão de o que é ser brasileiro? Ser brasileiro significa ser desonesto? Ou o brasileiro é honesto, mas age com desonestidade para não pagar de idiota? A desonestidade e a corrupção estão no DNA da nossa nação?

Seja através do humor, seja pela via dramática ou com tramas de fundo político, com o fim da ditadura militar aconteceu o boom de liberdade criativa com o fim da censura. Interessante que os novelistas passaram suas lupas criativas não apenas pelos gabinetes políticos e as salas de reuniões das grandes empresas, mas também dentro das casas da classe média e dos que sofrem para sair de casa às 5 da manhã pois dependem de ônibus para chegar a tempo no trabalho. Em praticamente todo capítulo de VALE TUDO, havia uma negociata milionária na empresa de Odete e uma secretária que roubava papel higiênico do local de trabalho, assim como uma boa ação de Heleninha (personagem rica e filha da Odete) e outra do Poliana (personagem do Pedro Paulo Rangel, que era uma pessoa tão boa que foi apelidado como a personagem literária que inventou o jogo do contente). Entre uma ação e outra, muito debate sobre o que seria ético e o que não seria. Não é à toa que a ideia da novela surgiu durante um almoço de domingo com a família de Gilberto discutindo exatamente o que significa ser honesto no Brasil.

Saindo da seara mais filosófica e da elite de Gilberto Braga, também me agrada muito o humor de Silvio de Abreu e sua DEUS NOS ACUDA. Dercy Gonçalves era Celeste, anjo da guarda do Brasil que recebeu a seguinte missão: o país estava tão desonesto e corrupto que para evitar uma desgraça maior ela deveria, para provar não ser um anjo incompetente, converter pelo menos uma pessoa a ser honesta. Sua cobaia era Maria Escandalosa (Cláudia Raia, mais linda e divertida do que nunca), filha de um trambiqueiro e ela mesma uma golpista de marca maior. Esta brincadeira de que o “jeitinho brasileiro” está acima de nós era demonstrado pela escolha do anjo Dercy, uma gaiata, boca suja, enrolona das regras celestiais, mas extremamente carismática – eu adorava quando ela falava um palavrão e o céu estremecia todo.

Hoje nas novelas esse assunto me parece que sumiu. Simplesmente sumiu. Ainda existem personagens corruptos, ladrões, mentirosos e conspiradores, mas é curioso notar que ele perdeu essa característica de que “ser brasileiro é isso”. O que houve? Com tantas denúncias de corrupção ficamos anestesiados? Desvinculamos nossa imagem de esquemas e treitas?

Como elas seriam julgadas hoje?

Como elas seriam julgadas hoje?

Podemos ver dois exemplos da nova abordagem da questão. Primeiro, no último capítulo de VALE TUDO, o personagem de Reginaldo Faria roubou a empresa, sua mulher matou Odete e ele foge do país em um jatinho dando uma mega banana – literalmente – para todo o país. Em INSENSATO CORAÇÃO (2011), novela do mesmo autor, o personagem de Herson Capri faz algo parecido e tenta uma fuga igual, porém dá a banana com o jatinho ainda em solo pegando velocidade para decolar. Só que seu gesto é interrompido pelo carro da polícia que atravessa o caminho e o impede de fugir, prendendo-o depois de uma denúncia. Numa entrevista, Gilberto disse que deu esse novo final ao personagem porque os tempos são outros e, bem ou mal, já vimos prisões e até devolução de dinheiro de corruptos.

O segundo exemplo é na novela IMPÉRIO. Quando Cristina, que está fazendo uma vistoria nas contas da empresa descobre que na verdade as pedras preciosas são frutos de contrabando, vemos que o Comendador ainda age na ilegalidade em muitos aspectos. No entanto, a moça que sempre se apresentou como um baluarte da moral e da ética aceita ajudar o suposto pai a forjar sua morte para evitar sua prisão iminente e assim ter tempo de colocar sua empresa inteiramente na legalidade. Quer dizer, não há um debate sobre ser corrupto ou não e como essa atitude afeta ao país, mas há personagens corruptos na individualidade – até mesmo o personagem principal.

Ao final da discussão, o avô de Maria de Fátima lhe diz que quem é conivente com a corrupção também é responsável por ela. “Princípio, honra e dignidade” não são conceitos abstratos e que, junto com com uma casinha no fim do mundo é o que ele vai deixar de herança para a ambiciosa garota.

Mudaram as novelas? Mudou o país? Mudou o público? Ou está “tudo como dantes do quartel de Abrantes”? Talvez estas respostas nos venham com mais alguns anos, mas um cheiro de novos ventos  está no ar. Até lá, deixa eu curtir de novo meu dvd de VALE TUDO.

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Publicado às 8 de dezembro de 2014 por em Novela, TV e marcado , , , , .
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