Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

ENFIANDO O DEDO NA FERIDA PARA FAZER RIR

jo-soares-horz

O que eu mais ouço as pessoas falarem é que “o politicamente correto está deixando tudo muito chato, pois nem uma piada mais se pode contar, não pode falar mais nada”. Já eu pensava o contrário, que não tem preço você saber que pode ir a uma mesa de bar e não será constrangido por uma piada idiota sobre negro, gay ou mulher – principalmente se você se encaixar em alguma dessas categorias ou de qualquer “classe piadável”. Mas uma entrevista do Jô Soares me fez repensar minha posição.

No RODA VIVA da época do lançamento do livro AS ESGANADAS (link), Jô falou sobre o tema e ressaltou a questão da censura prévia. A partir do caso de Rafinha Bastos, o humorista defendeu o direito do humor ser livre, apesar de não defender a piada feita sobre Wanessa. Diz ser muito perigoso a censura prévia de piadas pois esse caminho abre precedente para se censurar tudo, chegando às raias do absurdo como na época da ditadura militar. Esta declaração me fez questionar: Será que eu, que defendo tanto a liberdade, estou me tornando um censor? Me acalmei depois de reanalisar um bocado minhas posições e ver que, apesar de ter achado uma idiotice o que Rafinha disse, na verdade não foi diferente do que muitos homens falam a plenos pulmões em mesas de bar de todo o país quando aparece uma bela mulher grávida. Acontece que tanto nos bares quanto nas TVs, eu sempre achei essa piada sem graça.

Rafinha nunca fez meu tipo de humor, nunca achei graça nas suas piadas. Até dei uma chance recentemente ao programa dele, mas ele me decepcionou mais uma vez. No entanto, não há como negar que o que ele diz atinge uma parcela da população que consome suas piadas junto com seus programas. Neste ponto, meu mindwalk virou o canhão de luz para a outra ponta. Se antes ele iluminava o piadista, agora me mostra a pessoa que ri. Quem ri de uma piada dessas? Você? Afinal, não está ok dizer que “comeria a mulher e o bebê dentro da barriga dela” na TV, mas não tem problema você dizer numa mesa de bar, não é? Pois você está à vontade, cercado de amigos e não poderá ser processado por isso, hein?

Se os atuais humoristas fazem este tipo de piada é porque tem alguém que ri delas, porque se o seu meio de sobrevivência é fazer graça e você conta uma piada em que apenas dez pessoas riem, você vai morrer de fome, mas se faz cinquenta mil rirem de uma piada sua, você está fazendo isso bem. Agora, se a piada que estes cinquenta mil riram for uma comparação do metrô de Higienópolis e os campos de concentração nazistas o que isso me diz da plateia (e não do humorista)?

Nessa moda de justiça implacável com as próprias mãos, tem se discutido, então, a punição de cortar a língua de quem diz e não o ouvido de quem ouve, esquecendo-se que basta o espectador mudar o canal em que o impropério é dito.  Sempre me assusto como as pessoas não se tocam do poder que têm. O controle remoto serve para isso, sabiam? Se este cara diz algo que te desagrade, muda de canal. Se nenhum canal te satisfaz, desliga a TV. Vai ler um livro, ver algo que te interessa na internet. Se tudo o que te oferecem está ruim, busque um profissional, pois o problema é contigo!

Chato não é o politicamente correto, mas a patrulha.

Sexo e as Negas

Mas há problemas com o politicamente correto? É claro que há, assim como tudo na existência humana.

Semanas antes do lançamento da série SEXO E AS NEGAS, de Miguel Falabela, uma enxurrada de textos contra o programa estouraram na minha time line. Li vários deles e todos se tratavam sobre a sexualização da mulher negra, de como a mídia brasileira, especialmente a Rede Globo, faziam isso constantemente e que agora este homem branco (Falabela) estava mais uma vez denegrindo a imagem da mulher negra, a começar pelo título. Questionaram onde estariam as roteiristas negras na produção do programa, pois elas sim teriam legitimidade para retratar dramaturgicamente a situação. Li estas opiniões e esperei a estreia. Vi os dois primeiros programas e a que conclusão cheguei? O programa é sem graça. Ponto.

O assunto morreu por várias semanas, eu acho que porque viram que não havia nada de mais, porém reacendeu-se o debate com um vídeo do deputado Jean Wyllys dando sua opinião favorável ao programa e à sua representação da mulher negra. Segundo os textos que li, a opinião do deputado não seria válida por motivo de (desconsiderando acusações de que ele era um pretenso defensor dos direitos dos negros e que na realidade representava os interesses das grandes corporações da mídia): apenas uma mulher negra tinha o direito de dizer se aquilo seria ou não ofensivo e só ela sabe dizer como se sente no seu dia a dia.

Confesso que ao ler isso fiquei dividido, pois estava de coração aberto para abraçar esta causa, no entanto eu não consegui. Confesso aqui. Não consegui, não alcancei o que era dito. Apenas uma mulher negra pode dizer como se sente uma mulher negra? Apenas uma mulher negra pode expressar dramaturgicamente o que é ser uma mulher negra? O resto é equívoco? Então eu, como sonhador de escritor, nunca vou poder escrever um livro com uma protagonista que seria uma mulher negra, pois nunca poderei saber como ela se sente de verdade? Eu achava que o objetivo era fazer as pessoas que se encontram fora de determinado círculo verem o que se passa dentro do círculo e assim promover a empatia e o respeito. Claro que o respeito deveria estar na frente de tudo, mas como não vivemos numa sociedade ideal, podemos ao menos tentar começar com o conhecimento para daí chegar à ele.

Continuo em defesa da mulher (negra e branca), mas ainda tenho minha visão sobre elas. Acho legítimo que suas visões sobre si mesmas sejam finalmente levado em consideração, só acho estranho a exigência que elas sejam as únicas, a final vivemos em uma sociedade plural e toda categoria tem sua visão sobre outra. Quando ouvimos como o outro nos vê podemos ter uma medida de quem somos em algum aspecto.

Esta piada é uma ótima metáfora sobre a censura no humor.

Esta piada é uma ótima metáfora sobre a censura no humor.

Voltando ao humor e o politicamente correto quero declarar que existe sim graça que não ofenda. Veja Seinfield, The Nanny, o recém falecido Chaves e Chapolin, qualquer filme do Monty Python e no Brasil eu cito o Adnet. Controversos? É claro que sim, afinal isto é humor e a graça está nesta linha tênue.

“O humor é o filé mignon da inteligência”, já disse Chico Anysio. E se você pensar bem, nem sempre algo inteligente é engraçado, mas sempre uma coisa verdadeiramente engraçada é inteligente.

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2 comentários em “ENFIANDO O DEDO NA FERIDA PARA FAZER RIR

  1. Ivana Carvalho Mendes
    16 de dezembro de 2014

    Meu querido escritor,seu texto é excelente.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Wilton Lopes
    16 de dezembro de 2014

    Quando vamos falar sobre opressão, acredito que sim, apenas aquele diretamente afetado pode falar sobre aquilo. O que seria um homem querer tomar para sim uma luta feminina. Um hetero querer debater sobre os direitos gays. Ainda não vivemos em uma sociedade igual, nem retiro aqui aqueles que ajudam a construir a luta. Mas acredito que aqueles diretamente afetados que devem ser o protagonista da sua luta. Podemos sim chegar em um entendimento se dialogamos e analisarmos como isso o atinge. Seria tudo muito fácil se a solução estivesse no controle remoto: poderiamos mudar o canal da fome, da não moradia, da falta de saúde. . . A partir do momento que uma tv aberta recebe o direito de ter um canal ela tem por obrigação ser politicamente correto e tratar tudo da melhor forma possível. Se falam que ninguém gosta de nada refinado, nada que faz pensar muito tudo tem que ser mastigado e de fácil entendimento. Se um pessoa estar com muita fome e você oferece uma carne de quinta ela comerá sem reclamar. Por que não oferecer uma programação inclusiva, educativa e formadora de opinião? O humor na sua maioria é feito com grupos minoritários e que historicamente são oprimidos, é o negro, o pobre, a mulher, o gay. Muitos falam, temos que rir pra não chorar, e acreditam que isso é correto. Não devemos aceitar o preconceito disfarçado de humor, muito menos acreditar que seja censura o politicamente correto. Existem muitos que fazem um viagem louca sobre isso, mas no fundo eles partem de um princípio e esse princípio que deve ser seguido, se queremos lutar pela aplicação de diretos que já nos são garantidos.

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Publicado às 16 de dezembro de 2014 por em Humor, TV e marcado , , , .
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