Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

QUEM É O PROTAGONISTA?

Madame_de_La_Fayette

Em uma aula de literatura na UNB, conheço MADAME DE LA FAYETTE. Escritora do século XVII na França era considerada uma péssima por um motivo interessante. Muito por cima, a estória do seu livro é sobre uma mocinha do interior que tem um casamento arranjado com um senhor mais velho, vai morar numa cidade grande e lá se apaixona por um jovem e belo rapaz. Ao descobrir a paixão platônica dos pombinhos – cuja troca de carinhos não foi muito além de uns bilhetes – o velho marido tem uma síncope cardíaca, deixando-a viúva. Ponto alto dos acontecimentos! Daí eu te pergunto: o que fará a doce protagonista? Como acaba o livro? (tempo para você responder a essas perguntas).

Se você respondeu que resolvido o obstáculo, ela pode casar e ser feliz para sempre com seu amor, típico do movimento romântico, você está ERRADO! É claro que a jovenzinha se sentiu eternamente culpada da morte do pobre marido, abandonou o amante e se trancou na propriedade familiar, se penitenciando até o dia da sua morte.

Cuidado com o que você vai dizer agora! Se atrever concordar com aqueles que sempre disseram que ela realmente não sabe escrever um livro, pode estar correndo o risco de uma tremenda injustiça com De La Fayette. A escritora nada mais é do que o fruto de uma engrenagem que precede a ela. Explico: em 1700 e qualquer coisa, apenas aos homens era ensinado a aproveitar uma oportunidade, a correr para os braços da mulher (seja a amada, a amante, ou a esposa), esta deveria estar exatamente no lugar dela, que é, invariavelmente, no lugar onde o homem a quiser encontrá-la. Ou seja, os homens que disseram que Madame não era uma boa escritora (assim como as mulheres em geral) porque elas não sabem aproveitar as oportunidades, esquecendo, muito providencialmente, que eles viviam repetindo em seus livros que as oportunidades são dos homens. Eles que salvam, resgatam ou vingam as injustiças cometidas contra o “sexo frágil” – revi esta expressão em um livro de Balzac que estou lendo e não resisti em colocá-lo aqui com toda a sua ironia.

Dando um salto de quase dois séculos, chegamos aos negros libertos no Brasil. Semanas atrás teve o dia da Abolição da Escravatura pela Princesa Isabel (sic). Pois bem, este ato benevolente mudou a condição dos negros brasileiros. Eles passaram de escravos a miseráveis, pois o papel em que a lei estava escrito devia ser curto demais para vir acompanhado de um plano agregador dessas pessoas à sociedade. Digamos assim, “vocês eram escravos, agora estão livres, se virem para arranjar trabalho e sustento, afinal, vaga sempre tem. Só não trabalha quem não quer, é vagabundo, e ninguém é responsável porque são saudáveis como todo mundo e podem perfeitamente construir seu próprio patrimônio”. A generosidade – como uma das 7 virtudes teologais -, que certamente bateu no coração da filha de Dom Pedro II, conforme nos ensinam na escola, é mesmo uma coisa divina. Inclusive, sobre este assunto também fica de dica o filme MANDERLAY, do Lars Von Trier.

izabel

 Andei tudo isso para chegar nas novelas que, queiram ou não queiram, é o tema deste blog. A novela das 7 e das 9 levam nomes de favelas. Ambas. E favelas reais, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo. O Boni já declarou que acha que não tem nada a ver a Globo entrar nessa de protagonistas subindo o morro. Meu entender é que a análise dele é, principalmente, voltada para mercado. Ele acha que tramas envolvendo protagonistas pobres não colam e, muito provavelmente, se ele achasse que transformar a chamada classe C e D em protagonistas de novelas atraísse audiência, o faria mesmo sem gostar pessoalmente da ideia.

Talvez eu dei um passo muito grande e o leitor deve estar se perguntando onde os três pontos se encontram. Me explico. Joãozinho Trinta, carnavalesco, já declarou que “quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta é de luxo”. Essa é a síntese de um pensamento que permeou a produção cultural e que ainda ecoa, por isso as novelas – produtos feitos para vender e dar certo, mais até do que uma expressão artística – sempre contaram os conflitos de uma família rica ou a ascensão social de um protagonista/antagonista. Acontece que AVENIDA BRASIL tinha um núcleo principal formado por “novos ricos” que viviam como se estivessem em sua favela ou comunidade. Não eram como os ricos típicos de novela. Falavam alto, ao mesmo tempo, não conheciam comidas chiques, “eram da cerveja”, não estavam bem arrumados, etc. Chegavam ao cúmulo de usar Havaianas em casa (alguma vez você já havia visto alguém numa novela que não estivesse vestido em casa, no mínimo, com um visual para ir a uma boate?).

Por enquanto, estas estórias não foram ainda repelidas pelo público. No caso de BABILÔNIA, a baixa audiência não é a favela que dá título. Mas, pensando no caso da Madame de La Fayette e até dos negros, vejo com outros olhos as mudanças na TV. As classes econômicas mais baixas estão se vendo como atores na sociedade e têm aceito de bom grado as possibilidades que lhe são apresentadas. Digo, eles agora se vêm como protagonistas de uma história e, mais do que a mobilidade social, as histórias contam a evolução de uma pessoa. Pode até ser que essa mudança seja meramente formal, mas, sem dúvidas, a formalidade expõe uma transformação na sociedade brasileira.

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Publicado em 25 de maio de 2015 por em Sem categoria.
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