Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

GERAÇÃO Y POR MIM MESMO

geracaoy

Alguém da Geração Y me enviou este texto (clique aqui), pedindo para que eu escrevesse sobre ele. O texto falava o que ele queria dizer sobre como se sente, mas queria saber minha opinião. Bom, então vamos a ela:

Eu concordei com 35% do texto, discordei de 35% do texto e o resto eu achei mimimi. Portanto, vou me furtar ao direito de comentar apenas as partes que eu concordei e que eu discordei, pois acho que estes são os pontos que dá para argumentar.

Em primeiro lugar, adorei ver finalmente uma análise da Geração Y “por nós mesmos”. Eu lia sempre opiniões carregadas de preconceitos e ideias antigas que, justamente, não se encaixava com essa galera. Acho que eles devem sim falar como se sentem, principalmente porque as outras gerações vão morrer e quem vai tomar de conta é a galera da Geração, que também vai morrer depois, mas antes vai falar mal das gerações vindouras, que também a opinião vai fazer pouca diferença, porque os mais jovens vão achar que eles foram babacas e só fizeram besteira, e assim sucessivamente sem cessar, até o Sol explodir daqui uns milhares de anos.

Então, a primeira coisa que eu mais estou de acordo: Tio Francis é um escroto! A definição dela do Tio Francis é perfeita.

Sabe aquele seu Tio Francis que despreza seu sonho de trabalhar com desenvolvimento de videogames e sempre que tem a chance fala mal do seu cabelo? Então, ao contrário do que dizem seus outros parentes, Tio Francis não te ama. Esse não é o jeitinho dele de demonstrar afeto. Ele não fala essas coisas porque se preocupa com o seu futuro. Tio Francis é apenas um escroto. Ele gosta de te colocar pra baixo.

Os nossos pais, tios e avós tem o costume de dar muita corda pro Tio Francis, tanto o seu, quanto os Tios Francis individuais de cada um deles. Mandam felicidades no aniversário, fazem reuniões de família para visitá-lo, montam grupo no WhatsApp pra compartilhar umas piadas sem graça e trocadilhos infames feitos com emojis. Essa relação com o Tio Francis, que só traz amargura pra sua vida (seja na forma de reprovação da sua profissão, de desprezo pela sua escolha religiosa ou orientação sexual, de comentários infelizes a respeito da pessoa que você ama) é empurrada com a barriga pra manter aparências e status quo.

E quem se fode nessa equação? Vocezinha(o), que tem que manter na sua vida relações horrorosas baseadas numa eterna punheta social por algum motivo bizarro, como para não machucar os sentimentos da Vovó Matilda, que é mãe do Tio Francis. Ou porque vai ficar chato pro seu irmão, que trabalha na firma dele. Pra quem não sacou até agora, Tio Francis é uma metáfora pra qualquer amigo, “primo de consideração”, parente, namorado ou colega de trabalho. Às vezes, Tio Francis é aquele cara que emprestou uma grana pro seu pai quando ele tava falido. Outras, ele é aquele primo que é racista e homofóbico, mas-é-um-amor-de-pessoa.

 

Tio Francis poderia ser assim.

Tio Francis poderia ser assim.

Beleza, arrasou com o Tio Francis. O problema é que ela fala como se o Tio fosse o babaca lá longe que não tem nada a ver com ela, logo só o unfollow já dava para resolver a questão da convivência, consequência de ter nascido em um mundo que o computador e a internet dominava a tal ponto, que o mundo virtual era tão concreto quanto o real. Daí vem os “mal analistas” e falam em superficialidade das relações modernas que ela defende ser apenas uma outra forma de se relacionar atualmente – e nesse ponto eu concordo com ela novamente. O problema está em achar que esta Geração é que é assim.

Em Os Maias, livro do Eça de Queiroz de 1888, Carlos Eduardo da Maia e João da Ega brigavam com Dom Afonso da Maia, um velho de seus 80 anos, porque defendiam que não tinham obrigação nenhuma com o “Tio Francis” da sociedade portuguesa, enquanto o velho revolucionário ainda acreditava que eles tinham obrigações com os pilares da sociedade: pátria, família, propriedade e honra. Dom Afonso queria ver o neto casado e o jovem médico queria era fazer a revolução que tiraria Portugal da pasmaceira em que vivia – revolução que o avô também tentou fazer na sua mocidade. Portanto, o que eu acho a partir desse livro de quase 130 anos de idade é que o sentimento de “não sou obrigada a aguentar o Tio Francis” não é da Geração Y, é de todos os jovens de 20 e poucos anos – beijos Fábio Jr. No fim do livro, todo mundo sai decepcionado.

Quem já assistiu o filme Casa Grande, sabe que no final o adolescente da casa vai para a favela. As duas amigas que estavam comigo no filme entenderam que aquele era um prenúncio de um final esperançoso, dizendo que ele havia entendido a posição dele na sociedade brasileira e que essa seria uma atitude de quebra dos paradigmas preconceituosos dos pais do garoto. Eu sou mais cético/cínico. Acho que a cena final do filme quer dizer que o adolescente “de boa” que vai à favela fugir da dor de cabeça dos pais é o babacão do futuro que acha que a sociedade é injusta e por isso ele tem que garantir o dinheiro da cerca elétrica de casa e que, por isso, as cotas são uma bosta para o filho dele que estudou a vida toda em ótimos escolas.

Da esquerda para direita: Carlos Eduardo, João da Ega e Dom Afonso.

Da esquerda para direita: Carlos Eduardo, João da Ega e Dom Afonso.

O que eu quero dizer com isso é que o colega muito doido dela é o Tio Francis de amanhã. Eu tenho 31 anos, minha geração é a X – eu acho – e já vi uns amigos virarem o Tio Francis. Eram pessoas que há 5 anos atrás, quando a gente saiu da faculdade, eram progressistas, sem preconceitos e pensavam numa sociedade mais igualitária. Nesses 5 anos, casaram, tiveram filhos, passaram em um concurso público, compraram uma casa, um carro e agora falam barbaridades sobre O dia da Família (aqui), em nome da manutenção da sociedade conforme ela está estruturada, para meu grande espanto.

Mas eu acho que o que mais eu discordei do texto dela era o que mais eu tinha tudo para concordar. Quando ela diz que “o que é querido, o que eu prezo e quero perto de mim, não é pra machucar. Não é pra doer nem pra me fazer sofrer, é pra ser gostoso, é pra dar aconchego, harmonia e tesão. A gente curte o amor-pássaro do Rubem Alves, que é livre para voar, mas daí pra ele cagar periodicamente na nossa cabeça já não dá”. Nessa hora, eu quis segurar nos ombros dela e dar a real:

-Miga, pássaro caga. Não dá pra ter um amor-pássaro e esperar que com ele não venha merda. Então tem que achar uma coisa que não cague, tipo um robô. Busca um amor-robô.

Eu adoro a ideia do amor-pássaro. A alusão é linda e verdadeira, mas não tem jeito, você tem que limpar a gaiola, senão o bichinho vai morrer sufocado de tanta merda. Viver um amor também é lidar com a merda do amor, sorry. Deal with it! Fica aqui a música dos Tribalistas, O amor é feio (aqui).

Eu adoro a Geração Y, apesar de algumas vezes não entender ela, por isso eu presto tanta atenção. Acho uma bobagem achar que a geração tal, lá do passado, era melhor do que essa outra. Isso não existe. Eu fiz esse texto só para dizer tudo o que eu queria que a Geração Y soubesse, do alto da mediocridade da minha Geração X.

Ao contrário deles, Geração Y, eu boto a maior fé em vocês. Só quero que o menor número possível de vocês virem o Tio Francis, porque eu até aguento merda do amor-pássaro, mas merda do Tio Francis eu não sou nem um pingo obrigado a aguentar.

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Publicado às 31 de agosto de 2015 por em História, Humor, Memórias e marcado .
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