Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

DO FIM DE VERDADES SECRETAS OU O ULTRA REALISMO ESTÁ MORTO

verdade

Se você esteve sem internet e sem sair de casa no último final de semana, eu te conto o que aconteceu: acabou Verdades Secretas e muitas coisas precisam ser ditas a esse respeito.

Primeiro, faz bastante tempo que um final de novela não me satisfaz tanto. Não quer dizer que não tenha me decepcionado em alguns pontos, mas acho que a decepção veio mais da minha torcida do que da visão crítica da história. Esperei o Maurice Sarjan dar o pé na bunda do Anthony, esperei a Giovana dar o pé na bunda do Anthony, e esperei a Fanny, depois que ele voltasse rastejando pra ela, desse também. Mas não foi o que rolou, o casal de três teve um final mega feliz e a Fanny comprou um novo boy. Nem preciso dizer que a cena final da Grazi foi simples e de cortar o coração, acho que nunca mais vou ver um usuário de crack da mesma forma. Não estourou o escândalo do book rosa, as pessoas não ficaram sabendo do motivo do suicídio da Carolina, e o caso do Alex com a Angel não foi parar nem nas páginas policiais, nem entre as conversas dos personagens.

Porém o mais importante me satisfez muito: a solução do triângulo amoroso da família tradicional brasileira. Na primeira cena eu fiquei arrasado, porque a Carolina se matou deixando uma carta dizendo pra Letinha ir ser feliz, o que deixava a entender que ela ia terminar com o Alex (se você leu meu post anterior sobre a novela, sabe do que eu tô falando, se não leu, clica aqui). Passou a novela toda e, finalmente, Angel percebeu a loucura em que ela foi envolvida e o disse com todas as letras para o seu abusador e para todo o público que foi enganado pelos belos olhos do Rodrigo Lombardi e queria que eles tivessem um final feliz. Angel vingou sua mãe e vingou a si mesma, mas isso não redime também a sua parcela de culpa e o preço que ela pagou é até considerável: a perda completa da inocência, dando um novo conceito para o nome Angel.

demonia-horz

Contudo, meu principal objetivo em escrever sobre o final dessa novela era outro. Eu ia comentar o capítulo, no entanto, queria falar mesmo era da minha leitura do que vai acontecer daqui pra frente com as telenovelas brasileiras, mas a realidade atravessou o meu texto. Há tempos eu venho amadurecendo a ideia de um post dizendo que o público espera, atualmente, das novelas é fantasia. A mais pura, bela e – nem por isso menos – chocante, mas ainda assim, fantasia. Verdades fala de coisas horríveis, por exemplo, o pai da Angel que vendeu ela no último capítulo pro Alex! No entanto, a novela não perdeu em nenhum segundo a característica que deu ao telespectador a segurança que ele queria, o olhar artístico. Esse olhar são várias coisas, como por exemplo uma direção de arte legal, uma cenografia de acordo com a emoção da história, uma fotografia sombria, exageros dramatúrgicos que fazem a gente saber onde acaba o palco e onde começa a plateia e uma condução da câmera firme o suficiente pra te dizer “calma, isso é só uma novela, porque a vida real não é linda desse jeito, você está seguro”.

Muitos estudiosos de TV e novela vêm debatendo o motivo do público brasileiro estar rejeitando novelas muito realistas e dentre as principais causas seria a atual crise política e econômica do país. Por exemplo, na época de Avenida Brasil a crise política já existia (alguma vez ela acabou no nosso país?), mas economicamente tava todo mundo de boa ou pelo menos com boa expectativa. Acontece que agora está num nível que as pessoas estão assustadas e isso puxa outros medos: violência urbana, pobreza, desemprego, questões sociais sérias. Essas teorias se comprovaram com o sucesso de Os 10 mandamentos, da Record, e as novelinhas infantis do SBT. Eu não retiro o grau de qualidade alcançado por elas, mas elas comprovaram que o público está rejeitando essas produções ultra realistas da Globo, ou pelo menos da forma que a Globo está conduzindo essa realidade. E parece que finalmente o plim plim percebeu isso e tomou uma atitude. Anunciou que depois de A regra do jogo, a próxima novela será de cunho mais distante da realidade possível e o mais forte candidato é uma novela do Benedito Ruy Barbosa (escritor de Terra Nostra, Meu pedacinho de chão e Pantanal), contando uma estória que se passa às margens do rio São Francisco sobre a sua transposição. E olha que faz tempo que eu digo às pessoas a minha volta: está na hora do retorno das novelas de realismo fantástico (Roque Santeiro, Tieta, A Indomada), é isso que o povo está querendo ver!

Rico que mora em favela é assim (de acordo com novela).

Rico que mora em favela é assim (de acordo com novela).

Quanto à A Regra…, nela há um forte elemento que pode quebrar essa barreira do público atual, apesar de se passar, mais uma vez, em uma favela. Aquela favela não existe! O Morro da Macaca não é de verdade. A casa de um rico que vive no morro não é como a da Adisabeba. Tenho uma amiga que sempre discute as novelas comigo e ela resumiu perfeitamente a fantasia da criação daquela novela:

– Tenho ódio dessas novelas que o povo na favela come granola no café da manhã!

Pode ter gente na favela que come granola quando acorda? Pode. É estranho aos nossos olhos? Sim e não. Sim, porque quando você imagina alguém comprando no supermercado um saco de granola pra sua família, você não o visualiza subindo o morro, mas sim o elevador (pode ser preconceito meu ou nosso, mas aqui estou analisando as sensações mais básicas). Mas também, não, porque você ver o personagem do morro de novela comendo granola te aproxima dele, pois você também come granola, e te quebra o senso de realidade concreta, te fazendo pensar “só em novela que esse cara comeria granola, então eu aceito que ele mate a mulher assim que terminar essa tigela”.

Quando a novela surgiu, as redes controlavam os temas dizendo que o público só queria histórias de princesas e lutas de capa e espada. No fim dos anos 60, Véu de noiva provou que a realidade pode render matéria para boas novelas. Com a ditadura militar, temas considerados impróprios tiveram que ser tratados por metáforas ou simplesmente cortados. Com o fim da ditadura, houve um boom de realismo, porque finalmente você podia dizer tudo diretamente. E agora, 30 anos depois do fim da censura oficial, o público está de saco cheio de realidade nua e crua. Pode ser que a realidade mais pura volte à moda? Pode, mas até lá, eu vou matar minhas saudades de novelas ultra mentirosas.

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Publicado às 27 de setembro de 2015 por em História, Novela, TV e marcado .
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