Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

OLMO E A GAIVOTA

Fui ao cinema assistir Olmo e a Gaivota. É isso mesmo, assisti este filme amaldiçoado por tantos e, para piorar minha situação, eu gostei. ATENÇÃO, DAQUI POR DIANTE EU VOU FALAR DO FILME COMO SE VOCÊ TIVESSE VISTO TAMBÉM, ENTÃO, SE NÃO QUISER SE CONTAMINAR, PARE POR AQUI!!!

(Vamos dar uma chance a um outro tipo de trailer?)

Depois do vídeo que ganhou o segundo lugar com mais “deslikes” da história, chegou a gerar ataques em massa aos atores que nele participaram, com xingamentos de “abortistas” e “assassinos de crianças”, fiquei esperando algo no nível de Uma canta, Outra Não (L´une chante, L´autre pas, 1977). Passei o filme todo esperando o momento em que ela decide abortar, ou pelo menos fala em voz alta – Esta criança é um problema e eu não quero mais ela! Qual não foi meu choque quando a mulher diz que sempre quis ter um filho?! E que ela está muito feliz por estar grávida?!?!?!

Na verdade, este documentário (que possui de verdade algo no nível Keeping up with the Kardashians no sentido de deixar o real mais artístico e poético) é sobre todas as falácias que Olívia ouviu a vida inteira sobre a vida da mulher grávida e que agora ela está tendo que encarar. Ela pensou que poderia trabalhar até quase a hora de parir – não pode porque é uma atriz e sua imagem de gravidez vai atrapalhar a personagem -; achava que isso era besteira, bastava disfarçar com o figurino – não rolou, porque ela tem um problema no útero que a impede de sair de casa -; mas seu marido vai ajudá-la em tudo o que ela precisa – só que ele chega em casa cansado, pois está trabalhando mais para juntar mais dinheiro porque uma criança é algo caro -; e, pelo menos em um momento, ele diz que ela que tem que segurar a onda dela, porque ela que tem o bebê no ventre e ele não pode fazer nada quanto a isso, e por aí vai.

A investigação de Petra Costa e Lea Glob sobre o que se passa no corpo e na cabeça de uma mulher em um momento tão singular da sua existência é provocador, sensível e crítico, ao mesmo tempo que denuncia a profundidade epitelial da retratação da figura feminina nos meios de comunicação. Pelo que eu me lembre, o máximo que já vi sendo debatido nos canais de TV sobre o lado negativo de uma gravidez era quando havia algum problema fisiológico (preeclampsia, enjôos, desejos, etc). Nunca ninguém perguntou muito simplesmente “o que você fez quando você ficou com raiva porque não poderia subir as escadas correndo por causa da barriga”? – se você acha meu exemplo cretino, é porque você nunca precisou subir dois lances de escada correndo, coisa que você sempre fez e agora NÃO PODE fazer. Não é que você não quer fazer, você NÃO PODE, e todo mundo conhece o bicho carpinteiro que tem na gente que desperta na hora que alguém te fala NÃO PODE. Só para ilustrar novamente a forma de abordagem do assunto nas mídias, certa vez, na época da sua primeira gravidez, a atriz Graziella Moretto descreveu o crescimento do bebê dentro dela como se fosse um alien, gerando uns vácuos e que tomava de conta do corpo dela. A mulher foi massacrada publicamente por mães que não admitiam que ela falasse assim sobre estar grávida e ela precisou ir ao programa do Jô novamente para se retratar depois que o bebê nasceu, para dizer que o amava, que estava muito feliz e que estava grávida do seu segundo filho. Principalmente, que não o odiava.

Não á toa, num momento em que vemos Olívia interpretando ao lado do seu marido no palco, a trilha é uma música do filme As Horas, um filme em que as mulheres buscam do fundo do desespero de suas almas se entenderem, inclusive, como mulheres. E não é coincidência termos Laura Brown (Julianne Moore) grávida, insatisfeita e infeliz. Nada lhe dá prazer naquele encaixe da figura feminina de sua época, por que esta segunda gravidez lhe daria? Repare, o filme não afirma que lhe daria ou não lhe daria, mas ele pergunta e o que parece é que nem perguntar é permitido.

Um detalhe, talvez bobo e da minha visão pessoal do filme, é o corpo nu da mulher grávida. O vemos em estado praticamente natural, o que é chocante. Eu sempre disse e achei uma mulher grávida linda, mas descobri que eu sempre fui enganado. Geralmente, as fotos de mulheres grávidas só vão até quase o fim da barriga. QUASE. Nós vemos todos os pelos pubianos da mulher e só então eu me dei conta que, por exemplo, por causa da barriga fica dificílimo se depilar, caso ela queira. Ou num nível mais profundo, ela já estão tão enfadada do seu “estado interessante” que ela não dá mais a mínima para isso. Não estou dizendo que mulher tem que se depilar, nem nada disso, estou admitindo que descobri que meu olho foi acostumado a ver a imagem da mulher grávida lisa, rotunda, quase numa propaganda de hidratante. Agora me fala, se eu, que sou homem e não engravido, me surpreendi com tal imagem, já pensou se eu fosse uma mulher e descobrisse não um mal costume ocular, mas que eu me encontro neste estado? Porque, ao que parece, todas as outras mães são lindas, graciosas e fontes de maternidade e eu pareço (e me sinto) um ogro horripilante nada atraente fonte de secreções e pelos. Eu acabei achando-as mais lindas e admiráveis após este choque de realidade.

O isolamento de Olivia vai levá-la a uma viagem mental de autoconhecimento, sobretudo de autoconhecimento de uma mulher grávida, e isso faz diferença. Ela vai se fazer todas as perguntas da existência de uma pessoa, mas estas perguntas levadas no viés de uma mulher prenha ganha novas respostas. Eu era de tal jeito, ainda sou? Eu queria isso, ainda quero? Quero, mas ainda posso? E se eu não tivesse engravidado agora? Já pensou se eu não quisesse este bebê? E se eu deixar de querê-lo? E se eu não tivesse engravidado do Serge, mas do Alvaro, meu namorado anterior? E se eu tivesse engravidado há 10 anos? E se meus amigos me verem com esse barrigão? E se eu me trancar nesse banheiro, eu vou me sentir melhor?

(Que tal dar uma nova chance ao vídeo? Talvez ele faça um novo sentido)

Eu espero que ninguém queira dizer, ao final de tudo o que eu disse, que a história dessa mulher é loucura, porque você esteve do lado de uma mulher grávida e que nada disso se passou com ela. Nem eu estou dizendo que isso se passará com todas, pois a experiência de uma não é a de qualquer uma. Mas sem dúvida, se tiver mais alguma mulher passando pelo que Olívia passa e estiver se sentindo mal por isso, ver sua trajetória a fará não se sentir um monstro. E isso já é muito bom. Isso já é bastante feminista.

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Publicado às 25 de novembro de 2015 por em Feminismo, Filmes, Memórias e marcado , , , .
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