Eu tô ficando é velho, não é doido não!

idades, crise, felicidades, prazeres, tempo e 30 anos.

Dois Irmãos – Final

zana

Terminou a saga dos dois irmãos Omar e Yaqub – engraçado, acabo de perceber que não sei o sobrenome daquela família.

Como eu já escrevi aqui sobre o primeiro capítulo, agora a gente pode opinar sobre o resultado final da mininssérie Dois Irmãos. Em primeiro lugar, é curioso dizer que todas as opiniões que eu li sobre ela, fosse elogiando ou criticando, traziam exatamente os mesmos argumentos: linguagem barroca e pesada do diretor; interpretações de arrepiar de todo o elenco; o belo trabalho da roteirista, se mantendo fiel aos sentimentos do livro; e a questão do áudio.

Sobre o áudio, eu até o mencionei no meu primeiro post, mas o tratei com graça, pois achei que era uma algo típico do trabalho do Luiz Fernando Carvalho. Nunca imaginei que ia virar uma celeuma quase tão séria quanto a peruca do Antonio Fagundes em Velho Chico. Luiz Fernando até deu entrevista tratando das suas dificuldades quanto a filmar no casarão e as restrições ao som para a concessão de TV aberta. Sem falar no serviço on streaming, que é algo ainda mais problemático. No fim, a mim ficou a lição de observar com mais atenção a este quesito nos próximos trabalhos da TV, principalmente deste diretor, e refletir melhor para descobrir se um jogador deve ser bom dentro das regras do jogo ou se ele pode questionar que uma regra, que talvez não faça mais sentido, não deveria ser mudada, alegando que ela o prejudicou. Já tenho algo para pensar na cama antes de dormir.

gemeo-copia

Eu já disse que estava meio cansado do estilo do diretor, apesar de ser seu fã, e que eu seguiria os capítulos sobretudo por conta da história, que se comprovou estupenda. Surpreendentemente, após o primeiro capítulo de muito chacoalhar de ombros de Zana e muito filtro carregado, a história tomou totalmente a dianteira do trabalho. O filtro ficou mais suave, não teve mais danças na cozinha e todo o elemento estético serviu para a cada capítulo eu ir dormir pressentindo a chegada do pior. E, para piorar, eu não sabia que pior era esse. Se o incesto, o parricídio, o fratricídio, ou o que eu não era nem capaz de imaginar.

O que me assustava a cada dia não era o caráter grandioso da história, mas justamente a sua intimidade. Vi nos ódios de Omar e Yaqub o ódio de todos os irmãos. As pequenas brigas, as concorrências, os favoritismos de cada pai e de cada elemento da família (aqui entra a Domingas) e as conquistas que cada um tem na vida, mas que de nada serve, pois o outro sempre terá o que nós não teremos. Yaqub conquistou o mundo e Lívia, mas jamais terá o colo de Zana. Omar é o rei da noite e da malandragem, mas nunca será o citado como exemplo na mesa do jantar. E no final tem aquele castelo monumental formado pelas pedrinhas que um passarinho carregou no bico ao longo da sua vida. Onde eu estaria se não tivesse aprendido a lidar com a concorrência com meu irmão em algum momento da minha vida? É este o material das grandes obras literárias e dramatúrgicas. Pegar o que está dentro das nossas casas e retirar apenas o que nos evita a tragédia diária.

Milton Hatoum só fez isso. E isso é tudo.

yaqub

 

Eu poderia fazer um parágrafo só para elogiar os atores, mas sinceramente não precisa. Todos os elogios que eu faria para eles foi feito em todo e qualquer texto escrito sobre Dois Irmãos. Nem a crítica mais feroz tem coragem de falar nada de mais sobre eles. Então, por economia textual, passemos para um outro tópico.

Por fim, aproveitando a repercussão da minissérie, foi lançado o Caderno do Globo Universidade sobre o projeto Assista a Este Livro. Quem vem acompanhando os trabalhos de Luiz Fernando Carvalho sabe do seu empenho em adaptar grandes obras para o cinema e a TV e da sua forma de trabalhar. Ele busca ao máximo ser fiel à experiência com livro o que lhe traz elogios e reclamações, exatamente porque casar essas duas experiências é algo perigoso. No ritmo exigidamente cada vez mais frenético, uma obra audiovisual que te propõe vivenciar a experiência de ler um livro é quase um contrassenso. Para assistir algo seu é necessário silêncio e concentração (como ler um livro). Em suas adaptações, as falas são ao máximo ipsis litteris ao que está escrito e ouví-las/assisti-las é como as experiências do século XIX em que alguém lia um livro em voz alta enquanto todas as outras pessoas, em silêncio, lhe circulavam, às vezes bordando ou tomando um cálice de licor.

Para quem está interessado em se aprofundar no trabalho da adaptação, é só baixar o Caderno aqui. É de graça.

A minissérie Dois Irmãos valeu cada segundo, como escreveu a Cristina Padiglione. Foi um grito de arte no meio de produções sem ousadia, como disse Maurício Stycer. Mas para mim, um mero espectador vidrado em boas histórias e que busca aprender com elas, foi uma história emocionante e uma grande lição de como fazer um bom programa de televisão.

dois-irmaos

Anúncios

Deixe sua opinião

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 22 de janeiro de 2017 por em Sem categoria.

Navegação

%d blogueiros gostam disto: